A Estônia está reformulando sua estratégia de defesa para impedir a perda de território logo no início de um eventual conflito com a Rússia. Em vez de prever uma retirada gradual e aguardar reforços aliados, o país pretende enfrentar as forças russas desde a fronteira e ampliar sua capacidade de atingir alvos no interior do território inimigo.
Autoridades militares e de inteligência estonianas avaliam que não deve ocorrer uma guerra em grande escala entre a Rússia e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) pelo menos nos próximos dois anos. Ao mesmo tempo, consideram que Moscou se prepara para um possível conflito futuro e poderia testar a reação da aliança por meio de uma operação limitada contra um de seus integrantes.
Defesa ativa e presença na fronteira
Em maio, o governo da Estônia incluiu o conceito de defesa ativa em sua concepção de segurança nacional. A estratégia prevê posicionar as forças para enfrentar diretamente as unidades russas desde o início dos combates.
Como parte da mudança, a 1.ª Brigada de Infantaria será transferida de Tapa para Jõhvi. A nova base fica a cerca de 50 quilômetros da fronteira com a Rússia. Também estão sendo construídas instalações militares em Narva, cidade junto à fronteira russa e onde parte da população é russófona.
A base em Narva poderá receber até mil militares. Cerca de 200 devem permanecer no local de forma permanente, enquanto outros 800 poderão ser enviados em uma situação de crise. “Temos de começar na fronteira e vencer logo nos primeiros combates”, afirmou o coronel Tarmo Kundla, comandante da 1.ª Brigada de Infantaria.
Narva é considerada um dos pontos mais expostos a uma possível agressão russa pelos serviços de inteligência da Estônia. Entre os cenários avaliados está a ocupação da cidade por unidades não identificadas, os chamados “homenzinhos verdes”. Outra possibilidade seria o envio aberto de tropas com base em uma lei de maio de 2026, que prevê a proteção de cidadãos russos e de pessoas de língua russa no exterior.
Experiência da guerra na Ucrânia
A revisão da estratégia foi influenciada pela guerra na Ucrânia. Depois da anexação russa da Crimeia, a Estônia havia planejado uma defesa móvel, com operações em florestas e áreas alagadas para dificultar o avanço inimigo até a chegada de contingentes maiores da Otan.
A observação dos combates levou comandantes estonianos a concluir que o Exército russo aceita sofrer perdas elevadas para alcançar seus objetivos e consegue manter áreas conquistadas mesmo quando elas têm pouca importância estratégica e quando a infraestrutura é quase destruída. Para Tallinn, isso reforça a necessidade de evitar a perda de território desde o começo de um conflito.
Mísseis e reforço aliado
O orçamento de defesa da Estônia aumentou 42% neste ano, para 2,4 bilhões de euros, o equivalente a 5,4% do Produto Interno Bruto. O país encomendou nove sistemas HIMARS, dos Estados Unidos, e nove lançadores sul-coreanos Chunmoo. Os armamentos podem alcançar alvos a cerca de 300 quilômetros.
São Petersburgo está a cerca de 260 quilômetros da Estônia. Com os novos sistemas, Tallinn terá capacidade de atingir alvos localizados no interior do território russo.
O Exército estoniano tem cerca de 4200 militares em serviço permanente. O país também conta com cerca de 230 mil reservistas treinados, dos quais perto de 40 mil fazem parte do sistema de alta prontidão.
O Reino Unido anunciou o aumento de sua presença militar na Estônia, de cerca de 800 para 1200 militares. O reforço não indica que Tallinn espere uma ofensiva russa imediata. A avaliação dos serviços locais é que a capacidade de Moscou para iniciar outro grande conflito depende, em grande parte, da evolução da guerra na Ucrânia.
O fim do conflito poderia levar dezenas de milhares de militares russos com experiência de combate de volta ao país. “Temíamos a guerra na Ucrânia e agora tememos que acabe”, afirmou um alto responsável dos serviços de inteligência estonianos.







