A Rússia continua integrada ao projeto internacional de fusão nuclear ITER, apesar das sanções da União Europeia e da redução dos vínculos científicos entre Moscou e o bloco. O país mantém uma participação de 9,1% e fornece cientistas, tecnologia e componentes especializados para a máquina experimental em construção em Cadarache, na França.
O ITER busca demonstrar o potencial da fusão de núcleos de hidrogênio para produzir grandes quantidades de energia com baixas emissões. Lançado em 2007, o projeto reúne 33 países, entre eles Rússia, China, Estados Unidos e União Europeia. A participação europeia corresponde a cerca de 45,6% dos custos de construção, conforme informações do próprio ITER.
Durante uma visita ao complexo, o comissário europeu de Energia, Dan Jørgensen, classificou o dispositivo como “fundamental para os nossos objetivos de descarbonização e independência energética”. O projeto é associado à meta da União Europeia de alcançar a neutralidade climática até 2050.
Componentes e regras do projeto
A Rússia fornece a bobina de campo poloidal PF1, usada para moldar e controlar o plasma de fusão, além de giotrões. Esses dispositivos geram ondas eletromagnéticas de alta frequência para aquecer o plasma nos reatores. O país também participa do fornecimento de materiais de apoio à proteção do sistema de energia dos ímãs supercondutores e de portas superiores da cuba de vácuo.
As regras fundadoras do ITER não permitem a expulsão de um membro. A retirada voluntária é a única possibilidade prevista. Um porta-voz do projeto afirmou: “A Federação Russa é membro do ITER e participa através da sua agência nacional, o Project Center ITER”. Segundo ele, todas as atividades seguem os requisitos legais e regulatórios aplicáveis.
A permanência russa ocorre enquanto a União Europeia reduziu sua dependência do gás russo, excluiu instituições públicas russas da cooperação e do financiamento à pesquisa do bloco e proibiu o financiamento russo a organizações europeias de pesquisa em resposta à invasão da Ucrânia.
Fusão vira prioridade de investimento
A União Europeia prepara uma estratégia própria para a fusão nuclear. O plano, adiado por um ano, deve tratar de governança, clareza regulatória e cooperação internacional, tendo o papel europeu no ITER como um dos eixos. O bloco anunciou 330 milhões de euros para acelerar o setor e apoiar tecnologias e competências nucleares.
Um documento do Conselho sobre energia nuclear, datado de 9 de julho, recomendou a continuidade da colaboração com a Organização ITER e seus parceiros nas atividades relacionadas ao projeto, sem fazer referência à Rússia. A Comissão Europeia não respondeu à pergunta sobre se a participação russa provocou atrasos nas negociações entre os Estados-membros sobre a estratégia.
Desde a invasão em larga escala da Ucrânia, a União Europeia suspendeu a participação russa em programas como Horizonte Europa, Horizonte 2020, Euratom e Erasmus Plus. Em 2022, o CERN suspendeu o status de observador da Rússia e informou que não estabeleceria novas colaborações com o país.
Ainda assim, em junho, o ITER assinou um acordo de cooperação com o Instituto Kurchatov, da Rússia. O entendimento prevê troca de informações científicas, programas de pesquisa e treinamento. Em julho, o ministro russo da Ciência, Valery Falkov, visitou o complexo na França acompanhado de uma delegação.
Debate sobre dependência tecnológica
A continuidade da participação russa gerou questionamentos entre eurodeputados. Em 2025, três parlamentares perguntaram por escrito a Jørgensen se a União Europeia pretendia eliminar gradualmente a dependência da participação russa no ITER. Em resposta, o comissário afirmou que as regras do projeto não permitem expulsar membros.
Andrea Wechsler, uma das signatárias, disse que a Comissão não apresentou uma estratégia política para lidar com a participação russa na governança e no ecossistema tecnológico do ITER. Ela defendeu uma análise de segurança e estratégia e um plano para evitar novas dependências tecnológicas, mas afirmou ser contrária ao isolamento de pesquisadores, estudantes e cientistas russos.
Sehila Gonzalez de Vicente, diretora global de energia de fusão da organização Clean Air Task Force, avaliou que a cooperação internacional foi central para o avanço da área, mas pode se concentrar entre aliados e parceiros considerados confiáveis. Segundo ela, países e empresas buscam proteger tecnologias sensíveis e preservar vantagem competitiva na indústria de fusão.
Uma pesquisa recente do Parlamento Europeu indicou que avanços tecnológicos desde 2007 podem preparar a tecnologia para uso industrial na segunda metade deste século. O ITER, porém, foi concebido como um esforço de várias décadas, com cadeias industriais e sistemas que integram contribuições de diferentes países, incluindo Europa, Rússia e China.







