Cinquenta anos após sua morte, Mao Tsé-Tung continua sendo apresentado como um dos fundadores da China comunista. Seu retrato permanece na Praça da Paz Celestial, em Pequim, aparece nas cédulas e está ligado à fundação da República Popular da China.
Em Shaoshan, cidade natal do antigo dirigente, na província de Hunan, foram realizadas homenagens para marcar o aniversário da morte de Mao. Simpatizantes fizeram fila diante de uma estátua de bronze de dez metros, depositaram coroas de crisântemos e levaram retratos, túnicas associadas ao líder e exemplares do Livro Vermelho.
Na noite anterior, quase mil pessoas participaram de uma cerimônia diante do monumento. O grupo cantou músicas revolucionárias e gritou: “Viva o presidente Mao!”. Em Pequim, aposentados continuam entoando as chamadas canções vermelhas em parques da capital.
Memória e contradições
Entre os mais velhos, Mao é lembrado principalmente como o fundador da China popular e como o dirigente que, segundo a narrativa oficial, teria devolvido soberania ao país após um período de invasões e humilhações estrangeiras. Ding Yinan afirmou que o líder permitiu que a nação se levantasse e libertou as massas trabalhadoras.
Essa memória deixa em segundo plano episódios como o Grande Salto Adiante, campanha de industrialização lançada no fim dos anos 1950 e associada a uma das maiores fomes da história moderna. As estimativas sobre o número de mortos variam entre historiadores; algumas chegam a 40 milhões, sem consenso.
A Revolução Cultural, iniciada em 1966, também foi marcada por perseguições políticas, expurgos, violência e desorganização social. Professores foram perseguidos e agredidos, livros foram destruídos e milhões de pessoas sofreram perseguições durante uma década de turbulência.
Para Jean-Philippe Béja, diretor de pesquisa emérito do Centro Nacional de Pesquisa Científica, Mao reúne o papel de fundador da República Popular e a responsabilidade por acontecimentos que podem ser classificados como crimes. A historiografia oficial chinesa, porém, costuma tratar esses episódios como deslizes.
Limites para as críticas
Mao proclamou, em 1º de outubro de 1949, a fundação da República Popular da China em Pequim. A cena continua associada à legitimidade histórica do Partido Comunista, o que dificulta o questionamento público de sua imagem.
Béja afirmou que criticar Mao publicamente pode trazer riscos, incluindo prisão e desaparecimento. O artista Gao Zhen foi condenado a três anos de prisão por trabalhos que caricaturavam o antigo líder. Entre as obras havia representações de Mao como mulher e outra em que ele aparecia ajoelhado, pedindo perdão.
Entre os jovens, Mao tende a ser visto mais como uma figura histórica distante. Isso não implica necessariamente rejeição: um jovem afirmou considerá-lo um grande homem e fundador da nova China, além de avaliar que suas ideias ainda podem servir de referência.
Em Shaoshan, as autoridades transformaram a memória do líder em parte do chamado turismo vermelho, com museus, monumentos e cerimônias. Mao nasceu na cidade em dezembro de 1893, e sua imagem passou a integrar a economia turística local.
O Partido Comunista reconheceu oficialmente a existência de erros graves no período maoísta, mas continua apresentando Mao como grande revolucionário e fundador da República Popular. Descartar completamente seu legado poderia colocar em questão parte da narrativa de legitimidade do partido.
A homenagem ocorre em meio à desaceleração econômica chinesa e ao retorno, entre alguns setores da população, da nostalgia por ideais igualitários associados ao período maoísta. Esse sentimento não representa necessariamente um desejo de voltar ao maoísmo e também pode expressar reação às desigualdades e incertezas econômicas atuais.
Na China de 2026, Mao permanece ligado à soberania nacional, à unidade do país e à fundação do Estado contemporâneo. Ao mesmo tempo, a fome, a perseguição e a violência associadas a seu governo continuam difíceis de discutir abertamente.







