A China removeu 49 mil contas e cerca de 2.400 sites e aplicativos ligados a serviços de interação com companheiros de inteligência artificial, informou em setembro a Administração do Ciberespaço da China. As remoções ocorreram após a entrada em vigor, em 15 de julho, de regras federais para a relação entre pessoas e sistemas de IA com comportamento antropomórfico contínuo.
A regulamentação não proíbe todos os serviços de companhia virtual, mas veta práticas como induzir dependência emocional, manipular usuários ou prejudicar relações reais. Para menores de idade, as restrições são mais amplas: os serviços não podem oferecer familiares ou companheiros virtuais.
Entre as plataformas afetadas estavam Doubao, da ByteDance; Qwen, da Alibaba; Yuanbao, da Tencent; e Mishi, da NetEase Cloud Music. A interrupção levou à perda de personagens usados como namorados, amigos e integrantes da família virtual. Uma usuária chinesa que teve o namorado virtual deletado afirmou: “Ninguém pode substituí-lo. Vou apenas tentar seguir em frente.”
Tentativas de reconstrução
Um estudo publicado em setembro analisou publicações e comentários na rede social Xiaohongshu para avaliar a reação dos usuários. Além de lamentarem as perdas, eles compartilharam formas de preservar ou reconstruir personagens e discutiram se a responsabilidade pelo desaparecimento era das empresas ou do governo.
A migração para outro sistema, porém, não garante a recuperação do relacionamento. Transferir o histórico de conversas pode não reproduzir as memórias, a personalidade e a dinâmica acumuladas com o personagem anterior. A maior parte dos serviços permitia salvar as conversas, mas não oferecia uma forma simples de exportar o companheiro completo para outra plataforma.
A ByteDance manteve o aplicativo Maoxiang, voltado à criação e à interação com personagens de IA, incluindo companheiros virtuais. Depois das novas regras, o serviço passou a exigir verificação de identidade e idade e adotou restrições específicas para adolescentes.
Um preprint publicado em junho por pesquisadores de Stanford, Harvard e outras instituições avaliou o risco de dependência emocional também em chatbots que não são apresentados como companheiros. De acordo com o estudo, após 28 dias de uso diário, participantes que conversavam com a IA sobre questões pessoais por pelo menos cinco minutos reduziram em 10,3% a preferência por buscar apoio em humanos e aumentaram em 11,6% a preferência por IA.
Os pesquisadores defendem uma regulamentação efetiva para sistemas de IA em geral, e não apenas para serviços criados como companheiros virtuais. O debate ocorre em um país que registrou 7,92 milhões de nascimentos em 2025, queda de 17% em relação a 2024.







