MADRI — Dezenas de milhares de pessoas participaram neste sábado (3) de manifestações pelo direito à moradia em Madri e em outras cidades da Espanha. Os atos ocorreram depois que o Parlamento rejeitou, na sexta-feira, medidas apresentadas pelo governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez. Diante da crise política, o governo não descarta convocar eleições antecipadas.
Na capital, as estimativas variaram. As autoridades calcularam 70 mil participantes, enquanto o Sindicato dos Inquilinos estimou 500 mil. Valeria Racu, porta-voz da entidade, criticou a condução do governo e afirmou que os protestos demonstram uma nova força política nas ruas.
Entre os manifestantes estava Adhara Freile, de 41 anos, jardineira que mora com o companheiro em um apartamento de um cômodo, no bairro de Villaverde. Como o contrato de aluguel termina no próximo ano, ela teme ter de deixar o imóvel, como já ocorreu com outros moradores do prédio.
O livreiro Marcos Sainz, de 26 anos, disse que antes dividia com amigos um apartamento de três quartos por € 900. Atualmente, segundo ele, um apartamento de dois cômodos custa cerca de € 1.000. Sainz afirmou que continuará participando dos atos até que haja regulamentação dos aluguéis e disse temer que os moradores acabem obrigados a deixar Madri.
Javier, de 31 anos, instalador de painéis fotovoltaicos que não informou o sobrenome, relatou morar em um apartamento de 90 metros quadrados com mais três pessoas. Ele afirmou que gasta metade do salário para pagar um quarto pequeno e defendeu moradia estável e condições para construir um projeto de vida.
As manifestações já estavam planejadas antes da derrota das propostas do governo. A mobilização foi impulsionada por uma crise iniciada há cerca de dez dias, após o despejo de Maricarmen Abascal, madrilena de 87 anos que vivia havia sete décadas no mesmo apartamento. A imobiliária proprietária havia tentado aumentar o aluguel em 275%.
Após a pressão dos protestos, a empresa renegociou o contrato. Maricarmen poderá voltar ao imóvel depois de deixar o hospital e pagará € 500 de aluguel.
Entre as medidas rejeitadas estavam a suspensão, até 2030, dos despejos de pessoas vulneráveis; ações contra os chamados fundos abutres; e a renovação automática dos contratos de aluguel. A legislatura atual está prevista para terminar em 2027, mas a derrota reacendeu dúvidas sobre sua continuidade.
Pedro Sánchez reservou alguns dias para avaliar a situação e decidir se convocará eleições antecipadas. A falta de moradias acessíveis é apontada como um dos principais problemas sociais da Espanha. Plataformas de aluguel turístico, como o Airbnb, e fundos de investimento são acusados de elevar os preços ao comprar imóveis e reduzir a oferta disponível para os moradores.







