ASSIS — As celebrações pelos 800 anos da morte de São Francisco de Assis ganham força neste fim de semana, em Assis, na Itália. Em 2026, 4 de outubro passou a ser feriado nacional no país em homenagem aos valores associados ao santo, como paz, fraternidade, solidariedade e respeito pelo ambiente.
O centro das comemorações será a Basílica Superior de Assis. Às 23h59 de sábado, 3 de outubro, os sinos marcarão o início oficial da programação. No domingo, a cerimônia terá a presença do presidente da República, Sergio Mattarella, e de embaixadores de diferentes países.
Para o frei Giulio Cesareo, diretor do Gabinete de Comunicação do Sacro Convento de Assis, São Francisco não representa apenas a Itália, mas também outros povos. A avaliação é compartilhada por estudos que destacam a permanência da figura do santo como referência de paz, diplomacia e aproximação entre culturas.
O encontro com o sultão
Um dos episódios mais lembrados de sua trajetória foi o encontro com o sultão do Egito, al-Malik al-Kamil, durante a Quinta Cruzada, em Damieta, no Egito. Francisco deixou o campo dos cruzados e atravessou as linhas inimigas para falar com o líder muçulmano, na expectativa de convertê-lo.
A conversão não ocorreu, mas o sultão recebeu Francisco com respeito. A tradição também relata que o religioso se dispôs a passar por uma prova de fogo para demonstrar a verdade de sua fé. O desafio foi recusado, embora a coragem do frade tenha impressionado o governante.
O padre Paolo Nicelli, professor de teologia na Universidade Católica de Milão e especialista na relação entre Islã e modernidade, afirma que o episódio ocorreu em um porto de importância comercial para cristãos e muçulmanos. Para ele, o conflito tinha natureza econômico-militar, e o encontro entre os dois homens foi marcado pela palavra, não pelas armas.
Uma figura reinterpretada
O professor Antonio Musarra, da Universidade La Sapienza, em Roma, e pesquisador associado em Harvard, afirma que São Francisco foi interpretado de maneiras diferentes ao longo da história. A imagem atualmente mais conhecida, ligada à paz e à tentativa de pacificar conflitos, teria ganhado força depois da Primeira Guerra Mundial.
Musarra também destaca o modo de agir de Francisco diante de pessoas de outras culturas e religiões. Entre os exemplos estão seu contato com um leproso, associado à conversão do santo, e o encontro com o sultão.
Para Nicelli, esse episódio representa misericórdia e perdão. A lembrança de São Francisco continua presente, 800 anos depois de sua morte, como modelo de diálogo inter-religioso.





