A União Europeia cancelou uma visita oficial à Sérvia após manifestações de apoio e homenagens a Ratko Mladic, ex-general sérvio-bósnio condenado por genocídio, crimes contra a humanidade e crimes de guerra. O Conselho da Europa também condenou a glorificação do militar, cujo corpo foi levado a Belgrado com honras militares.
A comissária europeia responsável pelo processo de ampliação do bloco, Marta Kos, anunciou nesta sexta-feira (4) que não fará a visita prevista para quarta-feira (9). Ela afirmou que as homenagens são incompatíveis com os princípios exigidos dos países que pretendem integrar a União Europeia.
Entre esses princípios estão o reconhecimento dos crimes cometidos no passado, o respeito às vítimas e a reconciliação entre as comunidades afetadas pelos conflitos. A Sérvia apresentou o pedido de adesão em 2009, obteve o status de candidata em 2012 e iniciou as negociações formais em 2014. O processo enfrenta críticas relacionadas ao Estado de Direito, à liberdade de imprensa e à forma como setores políticos tratam as guerras da ex-Iugoslávia.
Reações às homenagens
O comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, Michael O'Flaherty, classificou como inaceitável a exaltação pública de Mladic. Ele disse que a glorificação de condenados por crimes de guerra não é protegida pela liberdade de expressão nos termos da Convenção Europeia dos Direitos Humanos.
O'Flaherty também lembrou que a legislação da Bósnia-Herzegovina criminaliza esse tipo de manifestação. A declaração foi feita depois de uma homenagem realizada na terça-feira (1º) em Banja Luka, principal cidade da República Sérvia, uma das duas entidades que formam a Bósnia-Herzegovina. Milhares de pessoas participaram do evento.
Na Sérvia, o traslado do corpo para Belgrado foi acompanhado por símbolos de Estado e por manifestações de simpatizantes ao longo do caminho. Faixas e sinalizadores foram vistos durante o deslocamento. Uma cerimônia pública estava prevista para segunda-feira (7), em uma igreja de Belgrado, seguida do funeral no mesmo dia, mas as autoridades ainda não haviam apresentado um programa oficial.
O presidente sérvio, Aleksandar Vucic, havia declarado que o enterro seria realizado em território sérvio. Sem detalhar os preparativos, afirmou que as autoridades teriam de conduzir uma operação “difícil” para garantir a segurança de “dezenas de milhares de pessoas” esperadas nas cerimônias.
Condenação internacional
Marta Kos destacou que Mladic foi condenado pelo Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia. A pena de prisão perpétua foi imposta em 2017 e confirmada em recurso em 2021. Os juízes o consideraram culpado por genocídio, perseguições, extermínio, assassinatos e outros crimes cometidos durante a guerra da Bósnia.
O episódio mais conhecido associado ao caso é o massacre de Srebrenica, em julho de 1995. Mais de 8 mil homens e adolescentes muçulmanos bósnios foram mortos por forças sérvias da Bósnia. A Justiça internacional reconhece o massacre como genocídio.
A guerra da Bósnia ocorreu entre 1992 e 1995, após a fragmentação da Iugoslávia. O conflito deixou cerca de 100 mil mortos e milhões de deslocados. As homenagens a Mladic reabriram divisões que permanecem mais de três décadas depois do fim da guerra. Para sobreviventes e organizações de direitos humanos, ele está entre os principais responsáveis pelos crimes do conflito. Já setores sérvios nacionalistas continuam a tratá-lo como herói militar.







