NOVA YORK — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a soberania brasileira, criticou a atuação internacional diante de conflitos armados e apresentou propostas associadas à sua campanha de reeleição durante o discurso de abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (22).
Foi o décimo pronunciamento de Lula na abertura da Assembleia Geral. Ao avaliar o cenário internacional, ele afirmou que a ONU vive seu momento mais crítico desde 2003 e responsabilizou o Conselho de Segurança pelo que chamou de imobilismo na resposta a conflitos. Para o presidente, a guerra representa uma falência da política.
“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou Lula ao defender relações de cooperação na América Latina e no Caribe. Sem citar Donald Trump nominalmente, ele criticou o que classificou como tentativas de ingerência externa em processos eleitorais e disse que diferenças ideológicas não devem impedir a integração regional.
Conflitos e soberania
Lula mencionou a guerra entre Rússia e Ucrânia, que, segundo ele, se prolonga há cinco anos, e afirmou que o conflito se tornou um drama humanitário. Também citou o estreito de Ormuz, que teria sido transformado em trincheira de guerra, embora devesse continuar como passagem para o comércio internacional.
Ao tratar do conflito entre israelenses e palestinos, o presidente citou Yitzhak Rabin e Yasser Arafat, que firmaram um acordo de paz em 1994. Ele afirmou que gerações de palestinos carregarão as consequências do conflito em Gaza e também mencionou os civis israelenses atingidos por ações do Hamas.
O presidente disse ainda que o Brasil tem minerais críticos e terras raras necessários à transição energética. Segundo Lula, a exploração desses recursos deve resultar em geração de valor no território brasileiro, transferência de tecnologia e abastecimento de setores estratégicos do país.
Crime organizado e economia
Ao abordar segurança, Lula afirmou que o Brasil está preparado para enfrentar organizações criminosas e rejeitou a necessidade de navios militares estrangeiros para vigiar as águas brasileiras. Em vez disso, defendeu cooperação para interromper o fluxo de armas e dinheiro destinado ao crime organizado.
Ele também mencionou uma proposta entregue ao presidente dos Estados Unidos para combater a lavagem de dinheiro feita por criminosos brasileiros no exterior. Lula afirmou que a falta de coordenação entre os estados favoreceu a atuação dessas organizações, mas disse que essa situação está mudando.
O presidente criticou a pressão sobre o Pix e defendeu o sistema como uma infraestrutura pública e gratuita de pagamentos. Também atacou as bets, que, em sua avaliação, transformam o vício em lucro e provocam endividamento e destruição de lares.
Lula afirmou que os pilares do multilateralismo estão sendo corroídos e citou a situação da Organização Mundial do Comércio (OMC). Criticou ainda campanhas contra vacinas, o negacionismo climático e o uso de tarifas como instrumento de coerção.
Trabalho e eleição
Na parte final do discurso, Lula defendeu o fim da escala 6×1, com dois dias livres por semana. Segundo ele, a mudança permitiria ao trabalhador descansar, estudar e conviver com a família, além de reduzir a sobrecarga doméstica que recai sobre as mulheres. O presidente também defendeu um país livre do feminicídio e a ampliação da participação feminina em espaços de poder e no mercado de trabalho.
Lula afirmou que, na eleição de 4 de outubro, os brasileiros escolherão entre democracia e negacionismo. Segundo ele, o pleito definirá se o país avançará para um futuro com mais oportunidades ou retornará a um passado de exclusão.
O presidente disse que a eleição será transparente e competitiva, com liberdade de expressão para os candidatos. Sem citar nomes, afirmou que alguns podem usar essa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país. Lula também declarou que o sistema eleitoral é moderno e robusto e concluiu que a democracia brasileira pertence aos brasileiros.







