O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defendeu a soberania nacional e a não interferência externa durante discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas na terça-feira (22), a 12 dias do primeiro turno da eleição. Sem citar nominalmente os Estados Unidos ou Donald Trump, Lula fez críticas a ingerências em processos eleitorais, disputas por recursos estratégicos e pressões sobre decisões brasileiras.
O presidente também abordou a reforma do Conselho de Segurança, a criação do Estado palestino, a regulação das big techs e da inteligência artificial. Ao tratar da segurança pública, disse que o Brasil deve assumir a responsabilidade por suas fronteiras e defendeu cooperação para interromper o fluxo de armas e dinheiro que abastece o crime organizado.
Lula voltou a defender o Pix, descrito por ele como uma infraestrutura pública e gratuita de pagamentos. O sistema é citado pelos Estados Unidos como justificativa para tarifas aplicadas sob a Seção 301 da Lei de Comércio. O presidente também criticou a associação de brasileiros a interesses estrangeiros que, segundo ele, seriam contrários ao país.
“Não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo”, afirmou Lula.
Soberania na campanha
A defesa da soberania ganhou espaço no discurso do governo depois que Donald Trump anunciou, em julho de 2025, tarifas que chegaram a 50% sobre produtos brasileiros. Na ocasião, a medida foi apresentada sob a alegação de que Jair Bolsonaro (PL) sofria perseguição política. Depois, o USTR abriu investigação contra o Brasil por supostas práticas comerciais desleais.
Segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg divulgada em outubro de 2025, a aprovação do governo Lula era de 51,2%. Levantamento Genial/Quaest divulgado em setembro de 2025 mostrou que 64% dos brasileiros consideravam correta a defesa da soberania brasileira diante das sanções dos Estados Unidos.
A relação entre os dois países teve momentos de aproximação a partir de setembro de 2025, quando Lula e Trump se encontraram nos corredores da Assembleia-Geral da ONU, em Nova York. Eles também se reuniram na Malásia, em outubro de 2025, conversaram por telefone e tiveram um encontro na Casa Branca, em maio de 2026.
Em junho de 2026, porém, o Escritório do Representante Comercial dos EUA aplicou tarifas de 27,5% sobre produtos brasileiros com base na Seção 301. Dias antes, o Departamento de Estado americano havia classificado o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como terroristas.
No final de agosto, a Abin comunicou ao governo federal e ao TSE que considerava crítico o nível de interferência americana nas eleições brasileiras. As pesquisas de intenção de voto, segundo o texto, indicavam estagnação de Lula, enquanto a desaprovação do governo superava 50% e havia empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro.
Avaliação dos pesquisadores
Para Guilherme Casarões, professor de estudos brasileiros da Florida International University e coordenador do Observatório da Extrema Direita, o discurso combinou a crítica à crise do multilateralismo com a preocupação sobre seus efeitos no Brasil. Na avaliação dele, a estratégia apresentou o bolsonarismo como uma força associada ao retrocesso, incluindo ameaças à democracia e submissão a interesses estrangeiros.
Naiara Alcantara, professora da Facs (Faculdade de Ciências Sociais) e do PPGCP (Programa de Pós-Graduação em Ciência Política) da UFPA (Universidade Federal do Pará), afirmou que a soberania envolve decisões políticas, econômicas, institucionais e ambientais. Para ela, a pauta pode mobilizar eleitores ao tratar de recursos naturais, Pix e interferência externa nas eleições.
Os dois pesquisadores apontaram limites para o uso eleitoral do tema. Casarões afirmou que parte dos brasileiros vê o apoio dos Estados Unidos a Flávio Bolsonaro como uma forma de ajuda para enfrentar a violência do crime organizado. Também avaliou que a campanha de Lula pode usar trechos do discurso para reforçar a oposição entre o presidente e Flávio Bolsonaro, embora a audiência da ONU seja restrita.
Naiara disse que a polarização reduz o número de eleitores disponíveis para serem persuadidos. Na avaliação dela, a soberania pode mobilizar principalmente quem não se identifica fortemente com a direita ou a esquerda, mas tende a produzir menos conversão de votos em uma disputa marcada pela divisão entre os extremos.








