Os planos de governo de seis candidatos à Presidência da República apresentam propostas para modernizar o SUS, reduzir filas e ampliar o acesso a serviços especializados. O uso de tecnologias, incluindo inteligência artificial, aparece em diferentes programas. Os documentos, porém, não detalham as fontes de financiamento nem como será fortalecida a coordenação entre União, estados e municípios.
As avaliações de Julia Pereira, do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, e Fernando Hellmann, da Universidade Federal de Santa Catarina, indicam que parte das medidas é executável, mas várias propostas repetem soluções já previstas ou dependem de estrutura e profissionais que não foram detalhados.
Lula e Flávio Bolsonaro
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propõe dar continuidade a políticas existentes, ampliar a digitalização dos dados de saúde e fortalecer o Complexo Econômico e Industrial da Saúde. Entre as medidas estão a expansão do atendimento especializado com hospitais privados, o aumento do Farmácia Popular, a oferta de exames gratuitos para hipertensão e diabetes, a ampliação do atendimento odontológico e a consolidação da rede pública de oncologia.
O plano também prevê o prontuário único do cidadão e o acesso, pelo celular, a agendamentos e resultados de exames. O documento cita a integração digital implementada pelo Ministério da Saúde em 2024. O prontuário eletrônico havia sido lançado em 2013, sem compartilhamento de dados entre as unidades.
Flávio Bolsonaro (PL) propõe usar inteligência artificial para organizar consultas e exames, identificar pacientes de maior risco e contratar serviços da rede privada para reduzir filas. Também defende reajustar a remuneração do SUS, criar programas de atenção domiciliar e instalar unidades móveis voltadas à saúde da mulher.
O candidato prevê ainda um prontuário vinculado ao CPF e integrado ao Gov.br, com informações sobre consultas, exames, vacinas e receitas. Pereira afirmou que o cadastro já é o número obrigatório do SUS desde 2025. Para os especialistas, a correção da tabela do SUS é necessária, mas o plano não informa como financiar a medida e concentra a atenção em hospitais filantrópicos.
Tecnologia e saúde mental
Augusto Cury (Avante) coloca a inteligência artificial no centro de sua proposta. O plano prevê uma plataforma pública de medicina digital, com atendimento virtual em até 30 minutos, triagem clínica automatizada e integração da saúde mental ao cuidado físico. Também inclui ações de prevenção ao câncer, estímulo a cooperativas de saúde e acolhimento permanente de pessoas neurodivergentes.
Pereira avaliou que a telemedicina não elimina necessariamente as filas, especialmente quando o gargalo está na realização de exames. Hellmann considerou positiva a proposta voltada às pessoas neurodivergentes, mas afirmou que seriam necessários processos mais desenvolvidos de avaliação e diagnóstico. O Censo do IBGE registrou 2,4 milhões de pessoas com transtorno do espectro autista em 2022.
Renan Santos (Missão) propõe integrar sistemas digitais, combinando telemedicina, diagnósticos apoiados por inteligência artificial, monitoramento clínico e conexão entre clínicas, laboratórios e farmácias. O plano se inspira parcialmente no DoctorSV, sistema implementado em El Salvador em novembro de 2025 após uma parceria entre o Google e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe.
O candidato também defende substituir a fila cronológica por uma escala nacional baseada em gravidade clínica, risco de progressão e perda da capacidade de trabalho. A proposta inclui prontuário digital unificado, vigilância epidemiológica em tempo real e repasses condicionados a metas de desempenho. Para os especialistas, a integração entre redes pública e privada pode enfrentar dificuldades, e o desempenho não deve ser o único critério de distribuição de recursos.
Caiado e Zema
Ronaldo Caiado (PSD) promete modernizar o SUS e vincular cada cidadão a uma equipe de referência para acompanhar doenças crônicas. O plano prevê teleconsultoria entre unidades básicas e especialistas, um centro de telediagnósticos de câncer, produção local de medicamentos e vacinas, identidade clínica digital e modernização de hospitais públicos.
Também estão previstas unidades móveis para atendimento de infarto e acidente vascular cerebral. Hellmann considerou positiva a ideia de acompanhamento individual, mas apontou que o programa não explica como enfrentará a falta de profissionais. Pereira destacou que o plano é o único entre os analisados que prevê metas e reconhece problemas na articulação entre os diferentes níveis de governo.
Romeu Zema (Novo) defende descentralização, redução do papel do Estado e maior participação do setor privado. Suas propostas incluem parcerias com clínicas e hospitais para reduzir filas, concessões e parcerias público-privadas na gestão de unidades, financiamento de clínicas privadas para atender pessoas com transtorno do espectro autista e prontuário interoperável entre os sistemas público e privado.
O plano também prevê vincular incentivos financeiros ao desempenho, conter a judicialização e alterar o marco regulatório da Agência Nacional de Saúde Suplementar para permitir planos com coberturas diferenciadas. Hellmann afirmou que a ênfase em parcerias privadas pode ampliar desigualdades, enquanto Pereira criticou a possibilidade de planos ambulatoriais deixarem procedimentos mais caros sob responsabilidade do SUS. O texto informa que 70% dos planos são empresariais.








