São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Política

Privatizações da Sabesp e da Emae são alvo de questionamentos sobre vínculos com o Banco Master

Doações, fundos, operações financeiras e possíveis conflitos de interesse são citados em pedidos de investigação ainda em análise.

Entenda ponto a ponto a relação entre a privatização da Sabesp pelo governo Tarcísio e o Banco Master

As privatizações da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae) passaram a ser questionadas por possíveis vínculos com o Banco Master, o empresário Nelson Tanure e pessoas ligadas ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). As suspeitas envolvem doações eleitorais, operações financeiras, a baixa concorrência nos processos de venda e possíveis conflitos de interesse.

Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, doou R$ 2 milhões à campanha de Tarcísio em 2022. Vorcaro teria chamado Tanure de “comandante”, conforme apurações da Polícia Federal. Tanure é investigado pelo Banco Central, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal.

Fundo Phoenix venceu leilão da Emae

No início de 2024, foi constituído o Fundo Phoenix, sustentado por ações da Ambipar. O fundo tinha Tanure como beneficiário final e era administrado pela Trustee DTVM, distribuidora de títulos e valores mobiliários ligada ao Banco Master. Carlos Piani, atual presidente da Sabesp, era presidente do conselho da Ambipar naquele período.

Em abril de 2024, o Fundo Phoenix venceu o leilão da Emae por R$ 1,04 bilhão. A empresa controla a elevação da água do Rio Pinheiros e atua também na geração de energia elétrica em usinas hidrelétricas no interior do estado.

As ações da Ambipar, usadas como garantia para a operação, tiveram valorização de mais de 700% entre abril e outubro de 2024. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) suspeitou que fundos ligados ao Banco Master e a Tanure tivessem atuado para inflar artificialmente o valor da empresa.

O Fundo Phoenix pagou pela Emae com recursos obtidos por meio de debêntures e de um empréstimo da XP. Depois da aquisição, o caixa da Emae foi usado para comprar debêntures da Light e investir em certificados de depósito bancário do Banco Master.

Em janeiro de 2025, durante a presidência de Tanure no Conselho de Administração da Emae, a empresa comprou R$ 160 milhões em CDBs do Letsbank, também ligado ao conglomerado do Banco Master. Em outubro de 2025, Tanure não pagou o empréstimo contratado com a XP Investimentos, e o banco executou a dívida e assumiu o controle da Emae.

Relações com a privatização da Sabesp

Em junho de 2024, Tanure e integrantes do Banco Master procuraram o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para articular um empréstimo destinado à compra da Sabesp. Participaram das reuniões Tanure, Reinaldo Hossepian, diretor do Banco Master, e Karla Maciel, então assessora da área de fusões e aquisições da instituição.

No mês seguinte, a Equatorial Energia anunciou a aquisição de 15% das ações majoritárias da Sabesp. A empresa foi a única concorrente no processo de desestatização. Naquele momento, Piani presidia o conselho da Equatorial.

A venda de 15% das ações da Sabesp somou R$ 6,9 bilhões, enquanto a empresa tinha lucros na ordem de R$ 56,2 bilhões. Ao todo, foram captados aproximadamente R$ 15 bilhões. Em 13 de fevereiro de 2026, as ações chegaram a R$ 152,50, alta de aproximadamente 127% sobre o preço de venda na desestatização.

A atuação de Karla Bertocco também foi questionada. Ela presidiu o Conselho de Administração da Sabesp e, poucos meses depois, integrou o conselho da Equatorial, única interessada na compra da companhia. Bertocco havia sido subsecretária de Parcerias e Inovação do Governo de São Paulo, presidente da Sabesp e diretora do BNDES. Até dezembro de 2023, ocupava uma cadeira no conselho da Equatorial.

Em julho de 2024, a federação PT-PCdoB-PV na Assembleia Legislativa de São Paulo encaminhou ao Ministério Público de São Paulo uma representação para apurar possível conflito de interesse e dano ao interesse público. O documento afirma que Bertocco participou de reuniões nas quais foram discutidas medidas relacionadas à privatização.

Recompra da Emae e pedidos de apuração

Depois de deixar os conselhos da Ambipar e da Equatorial, Piani assumiu a presidência da Sabesp. A companhia comprou a Emae do Fundo Phoenix durante sua gestão. A operação foi apresentada como parte de uma estrutura que permitiria à Sabesp controlar os mananciais da Região Metropolitana de São Paulo e o fluxo dos rios Pinheiros e Tietê.

O Supremo Tribunal Federal rejeitou duas ações que pediam a suspensão da privatização da Sabesp. Uma delas questionava a lei municipal que autorizou contratos de abastecimento de água e esgotamento sanitário; a outra contestava a lei estadual que permitiu a desestatização da companhia.

Em março deste ano, o deputado estadual Antonio Donato (PT-SP) protocolou no Ministério Público de São Paulo uma representação sobre possíveis irregularidades. O pedido menciona a eventual manipulação das ações da Ambipar, a fiscalização do leilão da Emae, a falta de concorrência na venda da Sabesp, o preço das ações e a recompra da Emae.

Segundo o documento, poderia haver prejuízo ao patrimônio público caso fossem comprovadas decisões tomadas com dolo ou culpa grave, como a venda de ativos abaixo do valor de mercado ou a compra de ativos inflacionados. O pedido também cita possíveis conflitos envolvendo Piani e Bertocco e a eventual influência das doações de Zettel. A investigação ainda está em análise e não havia tido andamento até a publicação das informações.

Respostas das empresas e do governo

A Sabesp afirmou que a aquisição da Emae foi aprovada por seu Conselho de Administração e analisada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). A companhia negou relação entre Piani e o Fundo Phoenix e disse que ele deixou a presidência do conselho da Ambipar antes de assumir a Sabesp.

A empresa também declarou que não houve conflito de interesse relacionado a Bertocco. Sobre as operações financeiras, informou que os dados estão nas demonstrações financeiras, auditadas e divulgadas ao mercado.

A Emae informou que, em dezembro de 2025, o juiz Fausto Dalmaschio Ferreira julgou improcedente uma ação popular que questionava a venda de ações para a Equatorial. A decisão descartou irregularidade ou conflito de interesses na atuação de Bertocco durante o processo.

A Secretaria de Parcerias em Investimentos disse que as desestatizações seguiram critérios técnicos, transparência, participação institucional e as etapas previstas no Programa de Parcerias em Investimentos. Sobre a Sabesp, afirmou ter realizado consulta pública e audiências, com quase “mil contribuições da sociedade”.

A secretaria também declarou que o leilão da Emae seguiu os procedimentos legais e teve proposta vencedora com valor 33,68% acima do preço mínimo do edital. Segundo a pasta, as operações foram aprovadas pelos órgãos reguladores competentes. A secretaria afirmou ainda que eventuais apurações sobre o mercado de capitais cabem à CVM e reafirmou o compromisso do governo com a lisura dos processos.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

Receba nossa newsletterUma seleção diária, direto na sua caixa de entrada.

As mais lidas

  1. 1
  2. 2
  3. 3
  4. 4
  5. 5