Grupos formados por adolescentes com interesses em comum podem fortalecer a autoconfiança, a comunicação e o sentimento de pertencimento. Experiências do Coletivo Jovem de Meio Ambiente do Ceará e do projeto Juntô Jovem mostram como a convivência entre pares contribui para o desenvolvimento psicossocial de crianças e adolescentes.
Aos 13 anos, Ryan participa do Coletivo Jovem de Meio Ambiente do Ceará e representa sua comunidade rural, em Cascavel, em reuniões e eventos. Antes, tinha poucas oportunidades de trocar ideias além dos colegas da escola rural e dos três irmãos. Depois de participar da Conferência para o Meio Ambiente e conhecer o coletivo, passou a se expressar mais em público e a compartilhar experiências com outros jovens.
O coletivo está vinculado a projetos do Ministério do Meio Ambiente. Nas escolas em que atua, estudantes interessados começam como delegadinhos e participam de reuniões e comissões sobre meio ambiente. Segundo Bárbara Cruz, coordenadora e mobilizadora do grupo, o envolvimento está associado a maior interesse pelos estudos, participação na escola e desenvolvimento de habilidades de liderança.
Pertencimento e confiança
Bárbara também relata melhora na comunicação de adolescentes tímidos ou inseguros. De acordo com ela, eles ampliam os círculos de amizade, aprendem a trabalhar em equipe, desenvolvem empatia e convivem com pessoas de diferentes realidades e opiniões.
Valter Júnior, de Groaíras (CE), participa do coletivo desde os 13 anos. Hoje, aos 26 anos, identifica a socialização como seu principal aprendizado e cita liderança, trabalho em equipe, mobilização social, escuta e diálogo entre as habilidades desenvolvidas. Jean Júnior, de Maracanaú (CE), atualmente mobiliza estudantes em escolas do estado e afirma que o projeto transformou sua conscientização individual em ação coletiva.
O relatório do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), que reuniu pesquisas sobre saúde mental de crianças e adolescentes no Brasil, informa que de 11 e 20% da população de 10 a 19 anos enfrenta algum transtorno mental no país. Nesse cenário, encontros regulares, tarefas conjuntas e um propósito comum podem estimular habilidades sociais e reduzir o isolamento, conforme avaliação do Child Mind Institute (CMI).
Em Manaus (AM), Isadora, de 17 anos, conta que tinha receio de conversar com pessoas novas. Ela passou a integrar o Juntô Jovem, iniciativa brasileira que reúne um comitê para discutir e sugerir melhorias nas políticas públicas de saúde mental de crianças e adolescentes. Coordenado pelo IEPS e pelo CMI, o comitê tem 11 adolescentes e jovens das cinco regiões do país.
Protagonismo dos adolescentes
Para Carolina Costa, gerente nacional do CMI, relações afetivas que produzem pertencimento ajudam os adolescentes a se sentir compreendidos e aceitos. Ela afirma que o convívio em grupo, associado a hábitos saudáveis e boas condições de vida, pode ajudar a lidar com o estresse e atravessar adversidades sem adoecer.
Isadora relata que os encontros presenciais e virtuais a ajudaram a ouvir com mais atenção, acolher amigos e perceber quando uma situação pode exigir ajuda profissional. Ela também associa essa experiência a mudanças na convivência com o irmão, com mais compreensão, empatia e sensibilidade.
Daniel, de 20 anos, integrante do Juntô no Rio de Janeiro (RJ), diz ter aprendido a observar as diferentes camadas das pessoas e a acolher suas histórias, origens e diversidade. Para Carolina, quando os jovens percebem que podem contribuir para transformar a realidade ao redor, passam a se reconhecer como agentes de mudança.
A escuta dos adolescentes é apontada como parte central desse processo. No Coletivo Jovem do Ceará, Bárbara afirma que o objetivo é criar espaços nos quais eles sejam ouvidos, respeitados e reconhecidos como sujeitos de direitos. Isadora também diz que participar faz os jovens perceberem que suas vozes têm valor e que podem contribuir para construir soluções.
Como formar e manter um coletivo
A participação pode ser dificultada por problemas financeiros, agendas cheias e pouca circulação de informações. Carolina lembra que muitos jovens estudam, trabalham, cuidam dos irmãos, enfrentam longos deslocamentos no transporte público e têm poucos recursos. Para criar grupos de acordo com a realidade de cada comunidade, ela recomenda escuta ativa, escolha de temas de interesse dos jovens e apresentação de referências de outros participantes.
Entre os temas possíveis estão saúde mental, meio ambiente, cultura, educação e oportunidades para o futuro. A gestão descentralizada também é recomendada, com responsabilidades compartilhadas para evitar a sobrecarga de uma única pessoa.
Para manter o grupo ativo, os integrantes podem mobilizar suas redes, convidar novos participantes e usar ferramentas digitais, como grupos no WhatsApp e perfis no Instagram ou no TikTok. O espaço precisa oferecer sentido a quem participa, seja pelo pertencimento, pela possibilidade de ter voz, pelo aprendizado, pela transformação da realidade ou pela construção de relações importantes.





