A diversidade cultural brasileira aparece em jogos independentes que transformam mitos, acontecimentos históricos, paisagens e obras literárias em desafios digitais. As produções passam por narrativas sobre escravidão, povos indígenas, folclore, sertão nordestino e devastação ambiental, com propostas que também buscam aproximar os jogadores de referências presentes no país.
Histórias de resistência e memória
Em Mandinga: A Tale of Banzo, lançado em 2021, Akil e Obadelê são dois guerreiros trazidos à força do continente africano para trabalhar como mão de obra escravizada em fazendas brasileiras. Akil é muçulmano e tem origem mandinga; Obadelê é um guerreiro iorubá e mestre da capoeira. Os dois enfrentam seus algozes e procuram conquistar a liberdade.
A trama leva os personagens ao Quilombo de Urubu, descrito como o quilombo mais importante da Bahia durante a escravidão. Situado no Subúrbio Ferroviário de Salvador, o local é liderado por Zeferina. A fuga inclui confrontos com capitães do mato, bandeirantes, feitores, mercenários e animais selvagens.
Em Dandara, de 2018, a protagonista é inspirada na guerreira e liderança do Quilombo dos Palmares. No mundo de Sal, onde espíritos antes livres passaram a viver sob opressão, ela luta pela liberdade, enfrenta criaturas místicas e desvenda mistérios. O jogo tem animação 2d e segue o gênero Metroidvania, no qual o avanço depende da descoberta de habilidades. Uma personagem inspirada no Abaporu, de Tarsila do Amaral, ajuda a desbloquear uma dessas habilidades.
Desenvolvido pela Long Hat, de Belo Horizonte, Minas Gerais, o jogo está disponível para console, PC, Nintendo Switch e mobile. Sua movimentação ocorre por saltos entre chão, teto e paredes.
Povos indígenas e defesa da floresta
A representação indígena é o centro de Huni Kuin: Beya Xinã Bena, desenvolvido em colaboração com o povo Huni Kuin do Acre pela Associação dos Povos da Terra (Apoti) e pelo estúdio Philosophical School of Games. A experiência se baseia em sete histórias ancestrais, com mitos e cantos do povo Huni Kuin. Cada fase, com visual em 2d, apresenta um conto tradicional e encontros com seres encantados, animais sagrados e uma floresta viva. O lançamento está previsto para o final do 3º trimestre de 2026.
Também em desenvolvimento, Turi – Kaapora acompanha uma entidade guardiã ancestral da floresta amazônica. Kaapora enfrenta a devastação causada por uma empresa em seu território e usa instrumentos indígenas, animais encantados e espíritos da floresta. Com animação em 3d, o jogo permite que as escolhas alterem as possibilidades de luta.
O projeto nasceu no curso de Design de Games da Universidade Anhembi Morumbi, em um Trabalho de Conclusão de Curso sobre representação indígena nos jogos digitais. O grupo inicialmente pretendia abordar incêndios e garimpos ilegais em áreas de Mata Atlântica.
Victória Motta, diretora de arte do Vortex Indie Games, afirma que o estúdio pretende levar o jogo a diferentes comunidades indígenas. A equipe trabalha com traduções para Tupi Potiguara, Guarani Mbya e Nheengatu e contou com consultores, atores, atrizes e profissionais especializados nessas línguas.
O estúdio ainda não tem previsão para o lançamento oficial por falta de recursos. Até o final deste ano, a intenção é disponibilizar na Steam uma demo com a primeira de cinco partes. A expectativa é concluir o jogo dentro de dois anos, caso seja obtido financiamento por edital.
Sertão, literatura e folclore
Em Arida: Backland’s Awakening, de 2019, Cícera atravessa o sertão nordestino para reencontrar os pais e sobreviver à seca. Ambientado no fim do século XIX, na Bahia, o jogo faz referência à região de Canudos e à Guerra de Canudos, ocorrida em 1896. Facão, enxada, água, milho e os conselhos dos moradores mais velhos ajudam a personagem a avançar. O jogo foi financiado pela Secretaria de Cultura do Estado da Bahia por meio do Edital de Culturas Digitais (FCBA) de 2014. Uma sequência, Arida 2, está em desenvolvimento.
Língua, lançado em outubro de 2021, acompanha Beto, um garoto que vive em uma pequena fazenda no sertão nordestino. Depois do desaparecimento de seu bode na caatinga, ele entra em um mundo encantado, onde precisa libertar espíritos animais por meio de quebra-cabeças e desafios. O projeto foi desenvolvido por Guilherme Giacomini.
Baseado no conto de Lima Barreto, A nova Califórnia, de 2017, se passa em Tubiacanga, no interior do Rio de Janeiro. A história começa com o roubo de ossos do cemitério local e a chegada de um forasteiro misterioso. Quem joga precisa investigar o caso, quebrar tumbas e furtar ossadas sem ser descoberto pelo boticário Bastos. O jogo combina ação, aventura e elementos estratégicos ligados ao ego, à ética e à ganância.
Já Cuca Catch, lançado oficialmente em 2022 por Matheus Kulick, usa reconhecimento facial e referências ao folclore brasileiro, ao cordel e à xilogravura. Voltado para aparelhos móveis, o jogo desafia o participante a se tornar aprendiz da Cuca, personagem do Sítio do Picapau Amarelo. Sobrancelhas e movimentos da boca controlam o personagem, enquanto os modos fácil, médio e difícil alteram a complexidade dos desafios.








