As cidades concentram riqueza e pobreza, e suas transformações alteraram as formas de trabalho, moradia e mobilidade social. Essa é a análise de Ian Goldin e Tom Lee-Devlin em A era da cidade: Por que o futuro depende de todos nós, publicado pela Perspectiva, com tradução de Sonia Nussenzweig Hotimsk.
Londres e Nova York aparecem como exemplos de centros cuja prosperidade média esconde a existência simultânea de áreas de privação. O mesmo contraste pode ser observado em bairros como o East Side, em Milwaukee, e Altrincham, em Manchester, citados como áreas entre as mais ricas de seus países.
Trabalho e mobilidade
Durante o século 20, empregos na indústria manufatureira, em funções administrativas e em ocupações semiqualificadas ofereciam salários considerados respeitáveis a trabalhadores sem ensino superior. A migração do campo para a cidade, em busca de melhores condições de vida, tornou esses empregos uma possível via de saída da pobreza.
Pesquisadores citados no livro estimaram que um menino nascido em 1940 nos EUA tinha uma taxa de mobilidade socioeconômica ascendente aproximadamente duas vezes maior que a de um menino nascido um século antes. Depois disso, porém, as taxas de mobilidade voltaram a cair. A mudança na estrutura ocupacional deixou muitas pessoas em bairros com problemas, sem acesso adequado a escolas, moradias acessíveis e transporte público eficaz.
Os autores sustentam que as cidades ainda podem ajudar seus moradores a alcançar seu potencial, mas afirmam que isso exige compreender como privilégio e desvantagem se deslocaram dentro dos centros urbanos desde a industrialização.
As primeiras cidades industriais
No início da industrialização, os empregos manufatureiros estavam longe da imagem de ocupações estáveis e bem remuneradas. A expansão das fábricas atraiu pobres do campo para cidades onde predominavam jornadas extensas, moradias precárias e condições insalubres.
Em 1835, Alexis de Tocqueville visitou Manchester e descreveu os alojamentos escuros e superlotados próximos às fábricas. Uma estimativa mencionada no livro indica que os porões usados como moradia reuniam 12% da população da cidade naquele ano. Na década de 1830, a semana de trabalho típica para homens, mulheres e crianças chegava a quase setenta horas. A falta de água potável e a superlotação favoreciam doenças como cólera, tifo e influenza.
Friedrich Engels esteve em Manchester em 1842, quando foi trabalhar na sede da empresa têxtil de sua família. A experiência contribuiu para que se tornasse um crítico do período inicial do capitalismo. Seu apoio financeiro a Karl Marx é apresentado como relevante para a ascensão do comunismo e do movimento dos trabalhadores nas décadas seguintes.
O livro também relaciona as dificuldades de Manchester às de outras metrópoles. Em Londres, Charles Dickens retratou a pobreza em David Copperfield e Oliver Twist. Em Chicago, as condições do distrito dos frigoríficos Union Stock Yards foram expostas na versão romanceada de The Jungle, de Upton Sinclair, publicada em 1906.
A cidade em zonas
A industrialização substituiu mercados e casas de comerciantes por fábricas e armazéns, cercados por moradias precárias. O transporte permitiu que os grupos mais ricos se afastassem da poluição e da miséria da periferia. Em 1922, Ernest Burgess formulou o Modelo de Zonas Concêntricas, com um distrito comercial central, uma zona industrial, áreas operárias, bairros de renda média e uma zona residencial destinada aos ricos.
O modelo, baseado de modo geral na geografia econômica de Chicago, não explicava todas as cidades. Paris manteve seus distritos fabris afastados das grandes avenidas construídas pelo barão Haussman, enquanto Londres concentrou atividades industriais no East End e preservou o Oeste para as elites.
Mais tarde, o automóvel acelerou o deslocamento dos mais ricos para fora dos centros urbanos. Na Feira Mundial de Nova York de 1939, a exposição Futurama, patrocinada pela General Motors, apresentou uma cidade com rodovias interligadas, tráfego constante e moradores vivendo em subúrbios. O modelo antecipou a reorganização das cidades dos EUA para a era do automóvel.








