A leitura por prazer está associada a benefícios para a memória, a atenção, o bem-estar e as conexões sociais em diferentes fases da vida, segundo um editorial elaborado por cientistas da Universidade de Cambridge. O material foi publicado em 15 de setembro na revista Psychological Medicine e reúne pesquisas sobre os efeitos do hábito no cérebro.
A análise ocorre em um cenário de queda nos índices de leitura. No Brasil, 53% da população não lê, conforme a pesquisa “Retratos da leitura” de 2024. Nos Estados Unidos, a parcela de pessoas que leem por prazer em um dia qualquer caiu de 28% em 2004 para 16% em 2023, segundo a Pesquisa Americana de Uso do Tempo.
Efeitos em crianças e adolescentes
O editorial foi organizado por Barbara J. Sahakian e Christelle Langley, neurocientistas e professoras da Universidade de Cambridge, e Vicki Perrin, CEO da The Queen’s Reading Room. A publicação se baseia no livro “Brain Boost: Healthy Habits for a Happier Life”, lançado por Sahakian e Langley em 2025.
Uma pesquisa de 2024 da National Literacy Trust apontou que crianças e adolescentes que gostavam de ler ou tinham o hábito diário apresentavam ganhos expressivos na alfabetização. Esse grupo obteve pontuação significativamente maior no Star Reading, avaliação usada nos Estados Unidos para identificar pontos fortes e dificuldades dos alunos.
A leitura também foi relacionada ao aprendizado de matemática. Memória de longo prazo, planejamento e organização, habilidades importantes para ler, participam igualmente do aprendizado da disciplina. Em 2021, a equipe liderada por Florina Erbeli, da Texas A&M University, acompanhou 554 crianças com idade média de 6 anos durante 12 anos. Desempenhos médios e altos em leitura foram associados a ganhos posteriores no desenvolvimento matemático, especialmente entre as crianças que começaram com desempenho abaixo da média em matemática.
Um estudo de 2024 também relacionou a leitura na infância à saúde cerebral, à cognição e à atenção. As cientistas responsáveis pelo editorial afirmaram que incentivar a leitura precoce por prazer pode melhorar o desenvolvimento cognitivo, a saúde mental e o bem-estar.
Resultados entre adultos e idosos
Entre adultos, pesquisas associaram a leitura à redução da sensação de solidão e à melhora das conexões sociais. Segundo um levantamento de 2015 da Quick Reads, 64% das pessoas leitoras disseram compreender melhor os sentimentos de outras pessoas, contra 48% dos não leitores. Já a Pesquisa de Leitores do Programa de Grupos de Leitura Compartilhada de 2022 registrou que 74% dos entrevistados perceberam efeito benéfico da leitura na saúde mental e no bem-estar geral.
Clubes de leitura também foram relacionados a esses efeitos. Em 2025, Chiara Milani, da Universidade de Florença, conduziu uma revisão que reuniu 11 estudos sobre leitura compartilhada entre idosos. Os resultados indicaram melhora do bem-estar e diminuição da solidão e do isolamento social.
Entre os mais velhos, o hábito pode estar associado a um declínio cognitivo mais lento e a menor risco de demência. Em uma pesquisa de 2021 conduzida pelos cientistas taiwaneses Yu-Hung Chang, I-Chien Wu e Chao A Hsiung, 37% dos 459 idosos entrevistados disseram ler regularmente. Eles tiveram desempenho melhor em todos os testes cognitivos do que os não leitores. O estudo também indicou que a prática regular pareceu reduzir os efeitos negativos da baixa escolaridade.
Como a leitura atua no cérebro
Uma pesquisa de 2015, baseada na análise de 40 ressonâncias magnéticas por pesquisadores austríacos, mostrou que os circuitos cerebrais ligados à leitura continuam sendo refinados ao longo da vida para aumentar sua eficiência.
Em crianças de 8 a 13 anos, maior habilidade de leitura foi associada a maior integridade da massa branca, rede de fibras nervosas que facilita a comunicação entre áreas do cérebro, sobretudo nas regiões ligadas ao processamento da linguagem.
Entre adultos de 18 a 25 anos, maior exposição à leitura impressa foi relacionada a melhorias na capacidade de leitura e em áreas cerebrais associadas à linguagem. O resultado incluía maior facilidade para lembrar nomes de autores e títulos de livros e revistas.
Pesquisas também associaram a leitura de ficção à ativação de redes cerebrais envolvidas na cognição social, relacionada à compreensão de como outra pessoa pode pensar ou se comportar. As autoras do editorial, porém, ressaltaram que “os mecanismos cerebrais pelos quais a leitura exerce esses efeitos positivos ainda não são totalmente compreendidos” e que são necessárias mais pesquisas experimentais para estabelecer as relações de causa e efeito.








