O reajuste do Bolsa Família foi definido pelo presidente Lula após uma reunião com um grupo de mulheres, realizada cerca de três semanas antes do anúncio. As participantes relataram que, apesar das ações do governo para ampliar a renda, persistia entre a população a sensação de aumento do custo de vida.
A decisão foi anunciada na quarta-feira (17), com reajuste de 15,04%. O benefício mínimo passou de R$ 600 para R$ 691, e o novo valor começa a ser pago em 19 de outubro, menos de uma semana antes do segundo turno das eleições.
A medida vinha sendo discutida havia meses entre auxiliares do presidente. Lula havia solicitado ao Ministério da Fazenda um estudo sobre os efeitos da alta dos preços na vida da população. Após a reunião, o governo acelerou também debates sobre preços dos combustíveis, endividamento das famílias e regulação das apostas online, conhecidas como bets.
A reunião foi organizada pelo PT com eleitoras de Lula. Segundo colaboradores do presidente, o encontro reforçou a percepção de que o dinheiro das famílias não estava chegando até o fim do mês. Essa avaliação também aparece em peças de campanha de Flávio Bolsonaro, candidato do PL. No último levantamento Datafolha citado no texto, os dois apareceram tecnicamente empatados nas simulações de primeiro e segundo turnos.
Decisão mantida em sigilo
A proposta de reajuste ficou restrita ao alto escalão do governo nas últimas semanas. Um integrante da campanha de Lula afirmou ter sido informado na semana anterior ao anúncio, quando a decisão política já estava tomada e os estudos estavam avançados. Dois dias antes da divulgação, integrantes de escalões mais baixos do Palácio do Planalto tinham apenas rumores sobre o assunto.
Aliados discutiram como apresentar a medida diante do risco de acusações de exploração eleitoral do Bolsa Família. A opção foi realizar uma agenda restrita, transmitida em vídeo, sem discurso de Lula. Parte dos aliados defendia uma divulgação mais ampla.
O ministro Dario Durigan, da Fazenda, afirmou que o reajuste será incorporado ao Orçamento sem aumento global de despesas, calote em precatório ou crédito extraordinário. Ele também declarou que a organização das contas públicas e a superação de um déficit de cerca de 2 pontos percentuais do PIB permitiram a recomposição inflacionária do benefício.
O governo ainda discute medidas sobre endividamento e bets. Lula tem dito que gostaria de fechar as plataformas de apostas, mas o tema é considerado delicado pela cúpula do governo. A discussão deve avançar na próxima semana, após o retorno do presidente de Nova York, onde participará da Assembleia Geral da ONU.
Para o reajuste, foram analisados ao menos três cenários. A correção linear, escolhida pelo governo, contempla mais beneficiários, embora seja mais onerosa para as contas e considerada por técnicos menos eficiente no desenho do programa. As alternativas envolviam o valor per capita, chamado de BRC, ou parcelas complementares destinadas a famílias com crianças, adolescentes, gestantes e nutrizes.








