O diagnóstico de Transtorno do Luto Prolongado foi incluído em 2022 na quinta edição revisada do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, conhecido como DSM-5-TR. Para adultos, o manual considera o diagnóstico quando, pelo menos 12 meses após a morte de alguém próximo, permanecem sintomas como saudade intensa, preocupação com a pessoa falecida, dor emocional, dificuldade de aceitar a morte e perda do sentido da vida. Para crianças e adolescentes, o período considerado é de seis meses.
A classificação diferencia o que o manual chama de “luto sem complicações”, entendido como uma reação normal à morte, do transtorno. O sofrimento não deixa de ser reconhecido, mas pode receber outra denominação quando ultrapassa determinado período e apresenta certa intensidade.
O limite entre descrição e escuta
O diagnóstico psiquiátrico moderno se desenvolveu a partir da classificação de doenças e da observação sistemática de sintomas. O médico alemão Emil Kraepelin teve papel central nessa tradição, que buscava identificar padrões para distinguir formas de adoecimento e orientar tratamentos. O DSM-5-TR é apresentado como uma expressão contemporânea dessa abordagem.
A psicanálise, porém, questiona se o sofrimento psíquico pode ser compreendido apenas pela descrição de fenômenos observáveis. Sigmund Freud enfrentou essa questão no tratamento da histeria, quando sintomas sem correspondência evidente com uma lesão orgânica exigiram considerar aspectos do sujeito que não poderiam ser reduzidos ao funcionamento biológico.
Nessa perspectiva, cada sofrimento tem uma história e envolve uma posição subjetiva diante do que foi perdido, desejado, amado ou recusado. A clínica psicanalítica busca sustentar uma escuta dessa relação singular, e não apenas observar sinais. No luto, essa diferença ganha importância porque a morte não elimina imediatamente a presença psíquica de quem morreu.
Em 1917, Freud escreveu “Luto e melancolia”, ensaio em que descreveu o luto como uma reação à perda de um objeto investido libidinalmente. Esse objeto pode ser uma pessoa, mas também uma pátria, uma liberdade, um ideal ou qualquer outra coisa que tenha ocupado um lugar na vida psíquica. No trabalho do luto, o mundo pode parecer pobre e vazio, enquanto o sujeito perde o interesse por atividades que antes o mobilizavam.
A perda também pode atingir a forma como alguém se reconhecia na relação com a pessoa morta. Por isso, a questão não se limita a quem morreu, mas inclui o que morreu junto com essa pessoa. Memórias, palavras, objetos, lugares e histórias mantêm a presença de quem partiu na realidade psíquica de quem ficou.
Freud conheceu essa experiência após a morte de sua filha Sophie. Em uma carta ao psiquiatra Ludwig Binswanger, escreveu que, independentemente do que pudesse preencher a lacuna deixada por ela, algo permaneceria.
Reconhecer sem reduzir
A criação do diagnóstico de Transtorno do Luto Prolongado também surgiu de uma tentativa de reconhecer pessoas profundamente afetadas pela morte de alguém próximo. A psiquiatra Holly Prigerson, associada a pesquisas sobre o luto prolongado, chama atenção para a importância de reconhecer esse sofrimento e suas consequências.
A discussão, portanto, não se resume a uma crítica ao manual. Ela envolve a pergunta sobre se acolher o sofrimento exige necessariamente transformá-lo em transtorno e quais efeitos essa classificação pode ter para quem recebe o diagnóstico.
A questão também se relaciona a uma dificuldade cultural mais ampla de sustentar experiências que não se resolvem rapidamente. A exigência constante de funcionamento faz com que a tristeza prolongada pareça interromper o ritmo esperado da vida. Nesse cenário, o enlutado pode ser visto como alguém que não acompanha temporariamente essa velocidade.
A psicanálise não propõe impedir o sofrimento nem defende que alguém sofra indefinidamente. Sua proposta é considerar outra relação com o tempo e com a singularidade. Não há um protocolo capaz de determinar o momento exato em que uma pessoa estará pronta para seguir em frente. A duração do luto não pode ser conhecida antecipadamente, e cada pessoa pode nomear sua própria experiência.








