São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Brasil

Mulheres negras identificam desigualdades e riscos nas plataformas digitais

A experiência de ocupar a internet levou mulheres negras a reconhecer vieses, violências e formas coletivas de proteção no ambiente digital.

Mulheres negras identificam desigualdades e riscos nas plataformas digitais

Plataformas digitais não distribuem visibilidade, credibilidade e alcance de forma automática ou neutra. Para muitas mulheres negras, essa percepção surgiu da própria experiência de construir comunidades, produzir conhecimento e disputar espaços que eram apresentados como democráticos, mas também reproduziam racismo e machismo.

A violência pode aparecer em ataques diretos ou de maneira menos evidente, por meio de questionamentos sobre competência, ataques à credibilidade, assédio coordenado e tentativas de silenciamento. A pesquisa “Cavando Nossos Espaços”, realizada pelo Instituto Minas Programam, registrou relatos de professoras universitárias, engenheiras e economistas negras que sofreram violência digital por ocuparem posições contrárias a expectativas racistas.

Redes e conhecimento coletivo

Mesmo diante desse cenário, mulheres negras continuam usando o ambiente digital para produzir conhecimento, compartilhar oportunidades, organizar campanhas, divulgar trabalhos e construir comunidades. A permanência nessas plataformas também envolve observar suas regras explícitas e implícitas: quais comportamentos recebem alcance, quais vozes são reconhecidas e quais usuários ficam mais expostos à violência.

Esse aprendizado cotidiano formou um repertório sobre tecnologia e poder. Antes de governos discutirem a regulação das plataformas e de empresas anunciarem compromissos com diversidade em sistemas de inteligência artificial, mulheres negras já questionavam quem recebe visibilidade e proteção, quem tem a autoridade reconhecida e quem é ignorado ao denunciar violência.

As redes de apoio aparecem como parte central das respostas. Outras mulheres negras compartilham informações, acolhem denúncias, ajudam a interpretar situações de violência, indicam caminhos e desenvolvem estratégias coletivas de proteção. Essas redes funcionam como uma infraestrutura informal de cuidado diante de respostas institucionais consideradas insuficientes pela análise apresentada.

Tecnologia, vieses e inteligência artificial

Falhas de moderação, reconhecimento, recomendação e representação revelam escolhas incorporadas aos sistemas das plataformas. Por conviverem com essas distorções, mulheres negras acumulam experiência para identificá-las, descrevê-las e indicar caminhos para tecnologias mais seguras e responsivas.

A presença delas em equipes de desenvolvimento também pode ampliar a identificação de riscos, considerar usos que escapam ao perfil de usuário tratado como padrão e qualificar decisões sobre os problemas que a tecnologia deve resolver e os critérios para avaliar seu funcionamento.

Com a inteligência artificial generativa, sistemas treinados majoritariamente com dados produzidos por e sobre populações brancas ocidentais carregam vieses que afetam mulheres negras em resultados de busca, ferramentas de moderação, sistemas de reconhecimento facial e respostas automatizadas relacionadas a crédito, saúde e emprego. A tecnologia também ampliou a produção de deepfakes sexuais, uma forma de violência que atinge especialmente mulheres negras em posição pública.

A experiência das mulheres negras reúne desigualdades de raça e gênero que influenciam quem é ouvido, protegido ou transformado em alvo de ataques. Por isso, além de serem usuárias da internet, elas são apresentadas como algumas de suas primeiras auditoras, capazes de mostrar como a tecnologia distribui riscos, oportunidades e poder.

Silvana Bahia é codiretora executiva do Olabi. Bárbara Paes é diretora e coordenadora de projetos do Minas Programam.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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