Lançamentos recentes de rap que usaram inteligência artificial generativa provocaram reação negativa entre fãs do gênero. Os casos envolvem desde a aplicação da tecnologia em etapas específicas da produção até músicas geradas integralmente por ferramentas de IA.
O rapper americano Tyga lançou o álbum “$TARFACE” em 31 de julho de 2026. Inspirado na música disco e no synth-pop dos anos 1980, o trabalho utilizou inteligência artificial para adicionar sintetizadores e um solo de guitarra. O disco teve baixas vendas e recebeu críticas negativas relacionadas ao uso da tecnologia.
Outro caso é o de “Rubberz”, do rapper americano Fenix Flexin. A música chegou ao 58° lugar da Billboard Hot 100 na primeira semana de junho de 2026, mas surgiram suspeitas de que ela havia sido gerada por IA. Flexin negou inicialmente e depois confirmou o uso de ferramentas generativas.
A confirmação ocorreu após a publicação de um vídeo do produtor Medasin. Nele, o produtor afirmou que Flexin e Purps on the Beat usaram o programa Treblo para produzir a faixa e criou uma música semelhante à composição. Depois, Flexin escreveu no Instagram que não havia problema em usar novas tecnologias como ferramenta.
Casos e precedentes
Um estudo conduzido pelo serviço de streaming Deezer e pelo instituto Ipsos apontou que 97% dos entrevistados não conseguiram diferenciar músicas produzidas por inteligência artificial daquelas feitas por cantores reais.
O rapper Kanye West afirmou em 2025 que incorporou a IA ao processo de composição e gravação, comparando a tecnologia ao auto-tune. Ele nega, porém, que o álbum “Bully”, lançado em março de 2026, tenha sido produzido com ajuda de inteligência artificial.
A parceria entre o Spotify e a empresa Kunumi lançou, em 2016, a música “Neural”, criada a partir de letras, manuscritos e poesias do rapper brasileiro Sabotage, morto em 2003. Familiares e amigos do artista acompanharam o processo.
Também há projetos voltados ao uso empresarial da tecnologia. Timbaland cofundou, em 2025, a empresa de entretenimento Stage Zero, responsável pelo cantor de IA TaTa. Em 2023, Lupe Fiasco foi convidado pelo Google para criar o TextFX, desenvolvido com base em técnicas que o rapper elaborou ao longo de duas décadas.
Tecnologia e identidade do rap
O rap passou por transformações tecnológicas desde sua origem. Nos anos 1970, a manipulação de discos de vinil, com dois toca-discos e mixers, permitia alterar batidas e prolongar padrões musicais. Na década seguinte, baterias eletrônicas, sintetizadores e samples ganharam destaque.
Nos anos 1990, equipamentos de gravação de alta qualidade passaram a ser usados em casa. As estações de trabalho de áudio digital, como Pro Tools e FL Studio, também ficaram mais acessíveis.
Para Felipe Vassão, músico, compositor e produtor musical, essas tecnologias ampliaram as possibilidades sonoras do rap, enquanto a IA generativa atual produz padrões que poderiam ser feitos sem a ferramenta. “A inteligência artificial, da maneira como é oferecida ao público hoje, é uma fábrica de padrões”, afirmou.
O uso da IA não é consenso entre artistas. Em artigo de opinião, o rapper americano Ben Reilly disse que a tecnologia pode ajudar em momentos específicos, como na criação de faixas de referência, mas não substitui o artista nem suas referências culturais e musicais.
Adailton Moura, jornalista, escritor e crítico cultural especializado em rap nacional e cultura hip-hop, afirmou que músicas geradas por IA não carregam características humanas como erros, ruídos e imperfeições. Para ele, essa dimensão é especialmente relevante em um gênero associado a questões sociais e de protesto.
Moura e Vassão veem possibilidades para a inteligência artificial na pós-produção e em segmentos específicos, como músicas para publicidade. Os dois, porém, apontam riscos quando a tecnologia assume todas as etapas da produção ou é usada sem repertório para avaliar a qualidade do resultado.
“Qualquer sistema que te torna dependente não é um sistema criativo, é um sistema de extração de valor”, disse Vassão. Moura também defendeu parcimônia no uso da ferramenta, especialmente por pessoas que estão começando a produzir música.








