São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Brasil

Reconstruir a convivência exige verdade, participação e espaços de encontro

Experiências de reconstrução após guerras podem orientar respostas a conflitos em famílias, escolas, organizações e comunidades.

Reconstruir a convivência exige verdade, participação e espaços de encontro

A interrupção da violência é apenas o início da reconstrução da convivência. Acordos e tréguas ajudam a conter a escalada e criar segurança, mas não eliminam perdas, medo, culpa, traumas nem marcas deixadas nas instituições. A transformação exige elaborar o ocorrido, reparar danos, reconstruir vínculos e reduzir a possibilidade de repetição.

A reflexão parte de uma formação da Berghof Foundation sobre trauma, pacificação e justiça transicional. O contraste apresentado foi entre dealing, associado à interrupção do conflito, e healing, voltado às condições que o mantêm vivo. As duas dimensões se complementam: conter protege no curto prazo; transformar enfrenta causas, relações e regras que sustentam o sofrimento.

O aprendizado para a vida cotidiana

Tensões semelhantes às existentes entre países também aparecem em famílias, escolas, organizações e bairros. Embora as escalas e os efeitos sejam diferentes, esses ambientes podem reproduzir sofrimento, exclusão, silenciamento e desumanização. A transmissão do trauma entre gerações, inclusive por mecanismos epigenéticos, é apresentada como um motivo de preocupação.

Na família, limites continuam necessários, mas ordens sem escuta, responsabilização e reparação podem produzir medo e afastamento. Na escola, punir ou expulsar pode deter uma conduta sem modificar o que a originou. Quando possível, a resposta deve envolver escuta, reconhecimento do dano, reparação e reintegração. Nas organizações, sanções e normas precisam ser acompanhadas de investigação, escuta dos envolvidos e revisão dos mecanismos que permitiram o conflito.

A educação sensível ao trauma considera que certos comportamentos podem refletir um sistema nervoso em alerta, ainda incapaz de expressar medo ou frustração em palavras. Por isso, a liderança precisa combinar contenção com transformação.

Cinco eixos para reconstruir a confiança

Experiências da África do Sul e de Ruanda são usadas como referências. Na África do Sul, a Comissão da Verdade e Reconciliação ouviu vítimas e vinculou anistias à revelação dos fatos e à dimensão política dos atos. Em Ruanda, os Gacaca levaram testemunhos e responsabilização às comunidades, com efeitos jurídicos, territoriais e psicossociais.

A partir desses casos, o texto apresenta cinco eixos:

  1. Verdade: reconhecer o que aconteceu interrompe o silêncio, a negação e a distorção. A verdade não substitui justiça, proteção ou reparação, mas abre caminho para a responsabilização.

  2. Rituais coletivos: cerimônias, memoriais, despedidas e pedidos de desculpas reconhecem perdas e dão forma à memória. Refeições, conversas e momentos de reconciliação também podem fortalecer o pertencimento.

  3. Participação da base social: crianças, adolescentes, estudantes, famílias, trabalhadores e comunidades devem ter espaço para contribuir, conforme o contexto. Participar não significa garantir concordância, mas amplia a legitimidade e reduz a percepção da divergência como ameaça.

  4. Liderança local: pais, professores, gestores e autoridades precisam interromper a violência sem reproduzi-la, ouvir e reconhecer erros. Sem revisão, a autoridade pode se tornar autoritarismo e a memória pode alimentar ressentimento.

  5. Espaços de convivência: bibliotecas, centros culturais, escolas, quadras abertas, hortas, praças e locais intergeracionais funcionam como infraestrutura de paz e saúde mental coletiva. Esses ambientes favorecem aprendizagem, participação, vínculos e confiança, além de reduzir o isolamento.

A reconstrução, portanto, depende de mais do que silenciar as armas ou encerrar uma disputa. Ela envolve reparar o presente para evitar que o sofrimento atravesse gerações e criar condições para que famílias, escolas, organizações e cidades convivam sem transformar a divergência em desumanização.

O texto é assinado por Rubens Harb Bollos, médico e fundador da Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão. Ele também idealizou o projeto de Literacia em Saúde Informação Cura. Bollos tem mestrado e doutorado em ciências da saúde pela Unifesp e pós-doutorado em biologia do desenvolvimento pelo ICB-USP. Sua produção aborda imunologia, epigenética, neurociência, saúde mental, tomada de decisão e cultura de paz.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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