São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Economia

Ascensão social pode manter marcas psíquicas da pobreza, afirma psicanalista

Kályton Resende relaciona o medo da queda, a culpa e a dificuldade de descanso ao trauma da pobreza.

Ascensão social pode manter marcas psíquicas da pobreza, afirma psicanalista

Sair da pobreza material não elimina necessariamente os efeitos subjetivos da escassez. A mudança de renda pode ser acompanhada pela sensação persistente de que a segurança está prestes a desaparecer, mesmo quando as condições de vida melhoram. A análise é de Kályton Resende, psicanalista e pesquisador da hipótese do trauma da pobreza.

Para Resende, a privação material não envolve apenas a falta de dinheiro e oportunidades. A experiência também pode marcar o corpo, o desejo e o inconsciente. Quem cresceu sem uma rede capaz de amortecer quedas pode manter um estado de alerta mesmo depois de conquistar maior estabilidade.

O medo depois da mudança

O psicanalista aproxima esse processo do que Freud observou em soldados que voltavam dos combates: experiências vividas podem reaparecer involuntariamente, sem que a pessoa escolha lembrá-las. Na pobreza, essa repetição se manifestaria como reação a uma marca que ainda precisa ser elaborada. Resende diferencia esse fenômeno da pulsão de morte, conceito desenvolvido por Freud em Além do princípio do prazer.

As manifestações tenderiam a aparecer com mais clareza depois da ascensão social. Durante a sobrevivência, a urgência ocupa o centro da vida e reduz o espaço para elaborar o sofrimento. Quando surgem tempo e conquistas, a pobreza vivida no passado pode encontrar condições para se expressar.

Entre essas marcas está o medo da queda. O temor não se limita à perda de emprego ou patrimônio, mas envolve o retorno à pobreza. Por isso, a reserva financeira pode não ser suficiente para desmontar uma angústia profunda. Esse medo pode aparecer como vigilância permanente sobre o dinheiro, dificuldade de descansar, negação da preocupação ou compulsão por trabalhar continuamente.

A ascensão também pode produzir uma sensação de não pertencimento. A pessoa deixa de se reconhecer inteiramente no mundo de origem, mas não encontra integração completa no grupo social ao qual chegou. Desse deslocamento podem surgir culpa, solidão e a necessidade de provar que merece a nova condição.

Elaboração e desejo

Resende descreve ainda a culpa de quem ascendeu enquanto familiares e amigos não tiveram a mesma oportunidade, além da obrigação de sustentar os demais por ter conseguido melhorar de vida. Nesses casos, a conquista pode ser vivida como uma dívida que não se resolve com dinheiro.

Para o psicanalista, a saída não está necessariamente em aumentar a renda. A psicanálise poderia ajudar a colocar em palavras experiências que permaneceram sem elaboração, permitindo que elas deixem de governar a vida de forma inconsciente. O objetivo seria viver as conquistas sem culpa e construir uma relação mais livre com o desejo.

Kályton Resende integra o Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro e pesquisa a hipótese do trauma da pobreza como mestrando na Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Ele também é autor, criador de conteúdo e idealizador do podcast Pobreza em Análise.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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