MANAUS — Moradores enfrentam temperaturas próximas de 38°C, sensação térmica acima de 41°C e interrupções frequentes no fornecimento de energia durante o período de estiagem. Os apagões impedem o uso de ventiladores, aparelhos de ar-condicionado e umidificadores, além de afetarem o trabalho, o descanso e a rotina doméstica.
A maquiadora Samara Leila Rodrigues, de 26 anos, vive no bairro Parque 10, na zona Centro-Sul. Ela relatou mais de 20 interrupções de energia em uma única semana. Em 2 de setembro, foram cerca de dez quedas entre 10h e 19h. Algumas duraram aproximadamente uma hora; outras, cinco ou dez minutos. Mesmo quando o fornecimento é restabelecido rapidamente, Samara evita religar os eletrodomésticos por receio de danos.
“Nos horários de pico do calor, fica insuportável ficar dentro de casa”, afirmou Samara. Segundo ela, a família passou a tomar mais banhos, o que elevou o consumo e a conta de água. A conta de energia também aumentou: antes, pagava em torno de R$300; na última fatura, o valor chegou a R$ 650.
O filho de Samara tem problemas respiratórios e não consegue usar o umidificador durante os cortes. Ela disse que, em uma semana, ele faltou à escola 2 vezes porque a família não conseguiu dormir à noite devido às quedas de energia.
Calor, seca e fumaça
O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) informou, no terceiro Painel El Niño 2026-2027, que há 90% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre setembro e novembro. O cenário prevê temperaturas elevadas e chuvas abaixo da média nas regiões central e norte do Brasil.
Manaus registrou 37,6°C em 1º de setembro, depois de alcançar 37,4°C no dia anterior, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). As sensações térmicas ultrapassaram 40ºC. Ainda conforme o Inmet, agosto foi o mês mais seco na cidade desde 1986, com 2,4 milímetros de chuva e apenas um registro de precipitação, no dia 22 de agosto.
O verão amazônico costuma se estender até novembro, com temperaturas elevadas, menor volume de chuvas e períodos de baixa umidade. Em 14 de agosto, a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) estimou em 95% a probabilidade de o El Niño atingir intensidade muito forte entre setembro e dezembro de 2026.
Nesta terça-feira (08), diferentes regiões da cidade amanheceram com forte cheiro de fumaça. O aplicativo Selva, do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental, classificou a qualidade do ar como moderada.
A Defesa Civil do Amazonas emitiu um alerta de onda de calor de intensidade moderada na tarde de 3 de setembro. O aviso permaneceu válido até 6 de setembro para Manaus e outros dez municípios do estado, com a indicação de que as temperaturas estavam acima dos valores normalmente esperados para o período.
Grupos mais expostos
O epidemiologista Jesem Orellana, pesquisador da Fiocruz Amazônia, afirmou que o calor prolongado afeta especialmente pessoas que vivem em habitações precárias, moradores em situação de rua, idosos em instituições com pouca ventilação e refrigeração e pessoas privadas de liberdade em ambientes insalubres. Também estão entre os grupos vulneráveis trabalhadores como garis, vendedores ambulantes e profissionais da construção civil.
Segundo Orellana, temperaturas acima da média podem favorecer desidratação e agravar doenças renais, cardiovasculares e pulmonares, além de causar desconfortos na garganta, na pele e no sistema respiratório. Adultos jovens sem comorbidades também podem sofrer exaustão térmica.
A estudante Rebecca Xavier, de 23 anos, relatou que o calor e as interrupções de energia afetam o trabalho, que depende de internet. Ela também disse que a falta de ventiladores e ar-condicionado torna a casa abafada, porque o sol incide diretamente sobre as paredes.
Medidas de adaptação e energia
O Plano de Ação Climática de Manaus, lançado no fim do ano passado, reconhece as altas temperaturas e as ilhas de calor como riscos. O documento prevê ampliação da arborização e das áreas verdes, especialmente em regiões periféricas, além do mapeamento de áreas prioritárias e pontos críticos de calor.
As medidas têm implementação de médio e longo prazo. O plano não define, entre as ações analisadas, uma resposta emergencial para períodos de calor extremo, como pontos públicos de hidratação ou protocolos específicos para grupos vulneráveis.
Em uma Audiência Popular realizada em agosto em Manaus, povos indígenas e comunidades tradicionais cobraram ações permanentes de adaptação climática para enfrentar as altas temperaturas, a falta de água potável e alimentos e a poluição provocada por incêndios florestais. O Amazonas ainda não concluiu seu Plano de Adaptação às Mudanças Climáticas. Conforme o Ministério Público de Contas do Amazonas (MPC-AM), a previsão é que o documento seja entregue em setembro de 2026.
A Âmbar Energia informou que reforça as equipes para atender ocorrências emergenciais durante o verão amazônico e citou ações de manutenção, substituição de equipamentos e intervenções na rede. A empresa declarou que pretende investir R$5,5 bilhões até 2031 na modernização do sistema elétrico.
A concessionária também afirmou manter o plano de enfrentamento da Ponta de Carga 2026, com extensão de circuitos, podas, limpeza de faixas de servidão e manutenção preventiva. A empresa, porém, não informou quantos apagões ocorreram em Manaus e no Parque 10 em agosto e setembro de 2026, nem apresentou comparação com o mesmo período de 2025.








