O Brasil reúne biodiversidade, conhecimento tradicional e capacidade científica, mas ainda tem dificuldade para levar descobertas sobre plantas medicinais até medicamentos, patentes e produtos comercializados. O principal obstáculo está na falta de integração entre pesquisa, regulação, financiamento, indústria e proteção da propriedade intelectual.
Poucos produtos nacionais
Entre 20 fitoterápicos registrados na Anvisa e analisados pela equipe responsável pelo estudo em 2016 e 2026, apenas três foram desenvolvidos no país: Acheflan®, Melagrião® e Sintocalmy®. Os demais têm origem em plantas importadas, principalmente da Europa e da Ásia.
O Acheflan® usa folhas de Cordia verbenacea; o Melagrião® é baseado em Mikania glomerata; e o Sintocalmy® tem como base Passiflora incarnata. Os estudos pré-clínicos desses produtos foram conduzidos pelo grupo de pesquisa citado no texto. Para o autor, a trajetória dos três demonstra que é possível transformar o conhecimento sobre plantas em produtos disponíveis no mercado, com evidências de eficácia e segurança. Ainda assim, eles são exceções diante da biodiversidade brasileira e da produção científica nacional.
Outro caso é o captopril®, usado contra a hipertensão arterial. O desenvolvimento do medicamento teve origem nos estudos de Sérgio Henrique Ferreira, realizados na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, com o veneno da jararaca Bothrops jararaca. A pesquisa contribuiu para a compreensão de mecanismos relacionados à hipertensão e para o desenvolvimento dos inibidores da enzima conversora de angiotensina.
Conhecimento que não chega ao mercado
Pesquisadores brasileiros publicaram 63 mil artigos científicos sobre plantas nos últimos 10 anos, segundo artigo de revisão do grupo. Em contraste, uma análise de patentes de medicamentos derivados de plantas medicinais brasileiras encontrou 25 pedidos envolvendo espécies nativas entre 2003 e 2008. A maioria havia sido originada em universidades e centros de pesquisa, mas os depósitos não se converteram em produtos, em grande parte pela falta de parcerias com empresas.
A dificuldade, portanto, não está apenas em produzir conhecimento. É preciso transformar os resultados em propriedade intelectual, tecnologias reguladas e produtos industriais. Isso exige financiamento para todas as fases, do desenvolvimento de extratos padronizados e da identificação de moléculas ativas aos estudos pré-clínicos e clínicos, ao registro na Anvisa, à produção e à chegada ao mercado.
Uma política integrada
A Lei nº 13.123/2015 definiu regras para o acesso ao patrimônio genético, ao conhecimento tradicional associado e à exploração econômica de produtos derivados, incluindo mecanismos de repartição de benefícios. O desafio é combinar a proteção da biodiversidade e os direitos das comunidades com condições favoráveis à pesquisa e à inovação.
A experiência da China é apresentada como exemplo de estratégia de longo prazo. Em março de 2025, o Escritório Geral do Conselho de Estado da China publicou um documento para melhorar a qualidade dos medicamentos tradicionais chineses e estimular a indústria. A política inclui proteção de espécies medicinais, bancos de dados, tecnologias de cultivo e reprodução, controle de qualidade, rastreabilidade e fornecimento de matérias-primas.
Também estão previstas modernização industrial, tecnologias digitais, integração entre universidades, instituições de pesquisa e empresas, ciência regulatória, testes em escala-piloto e industrialização. A estratégia usa patentes, marcas, indicações geográficas, proteção de variedades vegetais, segredos tecnológicos e proteção do conhecimento tradicional. Crédito, seguros e outros instrumentos financeiros devem apoiar o cultivo e o desenvolvimento de medicamentos.
O Brasil tem políticas públicas para plantas medicinais e fitoterápicos desde 2006, além de universidades, institutos de pesquisa, empresas farmacêuticas, centros tecnológicos, agências de financiamento e uma agência reguladora estruturada. O que falta é conectar esses componentes em uma política de Estado de longo prazo.
O país tem cerca de 45 a 50 mil espécies conhecidas de plantas e fungos, e aproximadamente 20% das espécies conhecidas no mundo ocorrem em seu território. Produtos naturais estão relacionados a aproximadamente 35–40% dos medicamentos. Para o autor, biodiversidade, conhecimento tradicional e competência científica formam uma base para a liderança brasileira em bioeconomia, desde que sejam articulados em uma estratégia capaz de gerar inovação.







