Uma pesquisa com 1.404 pessoas em 18 países ocidentais encontrou uma associação entre declarar-se canhoto e se posicionar mais à esquerda no espectro político. A relação, porém, não apareceu quando a lateralidade foi verificada pelo uso das mãos em tarefas cotidianas. Os resultados indicam que a identidade associada ao canhotismo pode ter mais peso do que a biologia nessa relação.
Os participantes se colocaram em uma escala de dez pontos, da direita à esquerda, e também informaram se eram canhotos ou destros. As respostas foram analisadas levando em conta idade, renda, gênero e escolaridade. Em média, os canhotos ficaram cerca de meio ponto mais à esquerda. Na mesma amostra, as mulheres ficaram 0,4 ponto mais à esquerda do que os homens.
A pesquisa foi feita online e não representa necessariamente cada país. Houve uma grande proporção de participantes do Reino Unido, mas os resultados permaneceram semelhantes quando esse país foi retirado da análise. O levantamento incluiu França, Alemanha, Estados Unidos, Itália e Espanha, entre outros países ocidentais.
Identidade e lateralidade
Em uma segunda etapa, os pesquisadores observaram qual mão os participantes usavam para escrever, utilizar tesouras, escovar os dentes e arremessar uma bola. Nessa medição prática, a associação com a orientação política desapareceu. Para os autores, o resultado enfraquece a hipótese de que diferenças biológicas sejam o principal fator da relação observada.
O vínculo foi mais forte em países latinos como França, Espanha e Itália, onde a oposição entre esquerda e direita tem presença marcante no debate político. Uma das interpretações é que a palavra esquerda pode criar, entre canhotos, uma associação simbólica com a identidade política.
Outra hipótese considera a experiência social de um grupo minoritário. Os canhotos representam de 10% a 15% da população e enfrentaram estigmatização ao longo da história. Até a década de 1970, crianças canhotas ainda eram forçadas a escrever com a mão direita na escola, especialmente na França. Em algumas culturas, comer com a mão esquerda ainda é mal visto.
Limites da interpretação
O estudo também considera explicações neurobiológicas, como diferenças na organização cerebral e uma possível relação com flexibilidade cognitiva e abertura a novas ideias. No entanto, os próprios resultados relativizam essa hipótese, porque o efeito apareceu na autodeclaração, não na observação do uso da mão esquerda.
Os autores ressaltam que a pesquisa não permite concluir que todos os canhotos votem na esquerda. Fidel Castro e Benjamin Netanyahu são citados como exemplos de canhotos que não formam uma categoria eleitoral homogênea. Estudos anteriores mencionados no trabalho, como Gerber et al. (2010), Mondak (2010) e Alford, Funk e Hibbing (2005), trataram da influência de traços de personalidade e de fatores hereditários na ideologia política.







