Um estudo internacional identificou moléculas capazes de eliminar parasitas da malária em testes de laboratório e em modelos animais. O composto 2d apresentou eficácia contra amostras de Plasmodium falciparum e P. vivax e não mostrou desenvolvimento de resistência nos ensaios realizados.
A pesquisa foi liderada pelo Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP e pela Collaborations Pharmaceuticals, Inc., dos Estados Unidos. Os pesquisadores produziram 18 moléculas sintéticas inspiradas na estrutura química de medicamentos já usados contra a doença, como a pironaridina e a quinacrina. Os resultados foram publicados na revista ACS Infectious Diseases.
Como os compostos atuam
O composto 2d age rapidamente e se concentra próximo ao vacúolo digestivo do parasita. Segundo Rafael Victório Carvalho Guido, professor do IFSC e um dos coordenadores do trabalho, a molécula impede a neutralização de um resíduo tóxico gerado durante a digestão do sangue humano. O acúmulo desse resíduo provoca a morte do parasita.
Em testes com amostras coletadas de pacientes em Porto Velho, em Rondônia, o composto foi avaliado contra P. falciparum e P. vivax e eliminou os parasitas. Também foram realizados experimentos com cepas de P. falciparum resistentes a múltiplos medicamentos comerciais.
Outra molécula, a 5d, reduziu a produção de energia do parasita, limitando sua sobrevivência. Já o composto 5a atingiu a mitocôndria, descrita no estudo como a estrutura responsável pela produção de energia. Os resultados indicam que essa família química pode agir por mecanismos diferentes.
Resultados em camundongos
Nos experimentos com animais infectados, o tratamento oral com o composto 2d eliminou os parasitas da circulação sanguínea. Todos os camundongos sobreviveram após 30 dias de acompanhamento, e o tratamento apresentou boa tolerabilidade.
Os testes também avaliaram se o parasita desenvolveria resistência ao composto. Não houve desenvolvimento de resistência ao 2d nos ensaios de laboratório, o que, segundo Guido, sugere a possibilidade de manutenção da eficácia por longo prazo.
Próximas etapas
O estudo ainda é uma etapa inicial do desenvolvimento de medicamentos. Antes de chegar aos pacientes, o composto precisa passar por otimização farmacêutica e por avaliações de propriedades como solubilidade e estabilidade no organismo. Também serão necessários estudos pré-clínicos de segurança e testes de toxicologia.
Depois, estão previstos ensaios clínicos em humanos. A fase 1 avalia a segurança em voluntários saudáveis; as fases 2 e 3 verificam a eficácia em pacientes com malária e definem a dosagem. A etapa final depende da análise dos dados por órgãos reguladores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) no Brasil.
A colaboração reuniu pesquisadores do IFSC, da USP, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Rondônia), da Plataforma de Bioensaios de Leishmaniose e Malária, do Centro de Pesquisa em Medicina Tropical de Rondônia (Cepem), do Centro de Pesquisas em Biotecnologia da Academia Russa de Ciência e do Centro Médico Universitário de Utrecht, da Universidade de Utrecht.
O trabalho teve apoio de Fapesp, CNPq, Capes e NIH. Além de Guido, a coordenação contou com Sean Ekin, da Collaborations Pharmaceuticals, Inc.







