SÃO PAULO — Credores da Vale dos Pireneus Comércio de Produtos e Serviços Hospitalares afirmam, em uma ação na Justiça de São Paulo, que parentes de Michel Roriz Clemente seriam usados como sócios formais de empresas que negociam produtos hospitalares com instituições públicas. Roriz nega ter relação com a administração ou os negócios das companhias.
A Vale dos Pireneus foi executada por uma dívida de 5,7 milhões de reais decorrente de um contrato firmado em fevereiro de 2025. A empresa havia cedido a fundos de investimento o direito de receber duplicatas emitidas contra hospitais, incluindo o Albert Einstein, por meio da unidade Hugo, em Goiânia, o Imed e a Fundação Universitária Evangélica de Anápolis. Como parte dos títulos não foi paga, os fundos cobraram a empresa e o médico Arthur Lanna Appelt, que assinou o contrato como garantidor solidário.
Sócios formais e nova empresa
O único sócio registrado da Vale dos Pireneus é Rui Reis Alves Júnior, ex-cunhado de Roriz. Depoimentos prestados por Alves em reclamações trabalhistas indicam que ele mantinha emprego como supervisor de logística de uma transportadora de Uberlândia. Ainda assim, seu nome aparece desde 2022 nos contratos da companhia que negociava com hospitais públicos.
Os credores sustentam que, quando uma empresa acumula dívidas, contratos rentáveis são transferidos para outra companhia, registrada em nome de um parente. Em dezembro de 2023, foi criada a Sou Gestão Empresarial e Consultoria, a Sougemp, em nome de Aline Roriz Clemente, irmã de Michel. Ela é pedagoga e havia trabalhado com carteira assinada na Vale dos Pireneus, com salário mensal de 3 mil reais.
Levantamento cadastral indica que 9 das 12 atividades secundárias da Sougemp coincidem com as da Vale dos Pireneus. Entre elas está o comércio atacadista de instrumentos e materiais hospitalares. A nova empresa também tem, em Anápolis, o mesmo endereço declarado por Roriz ao TSE como sua residência.
Documentos do processo registram trabalhadores que aparecem como freelancers da Vale dos Pireneus e como funcionários da Sougemp na competência de janeiro de 2026. Em 28 de janeiro, a Vale transferiu 11.488,45 reais à Sougemp. Em 9 de fevereiro, a nova empresa emitiu uma nota fiscal de 65.991,75 reais contra a Vale, embora um contrato previsse pagamento fixo de 6,8 mil reais pelo serviço.
Defesa e manifestações
A advogada Priscila Rosa Vieira Roriz, esposa de Michel Roriz e responsável pela defesa da Vale dos Pireneus, afirmou no processo que os pagamentos correspondiam a serviços regulares de terceirização. A defesa disse ainda que o bloqueio afetaria salários vencidos e o fornecimento de insumos hospitalares.
A juíza Adriana Cardoso dos Reis, da 37ª Vara Cível de São Paulo, negou a liberação dos valores bloqueados. Um recurso obteve efeito suspensivo parcial, mas o bloqueio continuou mantido.
Roriz disse que não é sócio, proprietário ou devedor relacionado às empresas e que não integra o processo. Sobre a Sougemp, afirmou que a companhia pertence à irmã e negou que ela seja sócia de fachada. Também disse que a coincidência entre o endereço da empresa e o domicílio informado ao TSE não comprova participação societária.
Rui Reis Alves Júnior não acrescentou informações e encaminhou as perguntas ao advogado da Vale dos Pireneus, Tiago Miranda, que não respondeu. Aline Roriz Clemente não foi localizada.








