A possibilidade de um governo de Flávio Bolsonaro alterar políticas ambientais preocupa investidores, empresas e executivos ligados à agenda climática. O senador, que liderou o primeiro turno, prometeu fortalecer o mercado regulamentado de carbono e expandir a bioeconomia, mas não esclareceu se manteria iniciativas de financiamento verde do governo Luiz Inácio Lula da Silva.
No segundo turno, marcado para 25 de outubro, Flávio enfrentará Lula, que tenta posicionar o Brasil como polo de financiamento climático. O governo atual lançou programas para atrair capital privado para projetos verdes e estabeleceu as bases para um mercado regulado de carbono.
A campanha de Flávio afirmou que sua agenda ambiental seria aprimorada durante a transição entre governos. Entre as prioridades citadas estão incentivos de conservação baseados no mercado, como o pagamento por serviços ambientais, e o combate a crimes ambientais. A meta anunciada é eliminar o desmatamento ilegal até 2029, um ano antes do prazo defendido por Lula.
Dúvidas sobre mudanças climáticas
Investidores e executivos demonstraram preocupação com declarações anteriores do senador. Flávio afirmou que eventos climáticos extremos são cíclicos e que não acredita que sejam causados exclusivamente pela ação humana. Também disse que investimentos em saneamento básico seriam a melhor forma de lidar com as preocupações climáticas.
O Observatório do Clima afirmou que o plano de governo ignorou em grande parte as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa. Para a organização, propostas de combate ao desmatamento e de fortalecimento da fiscalização ambiental entram em conflito com a atuação de Flávio no Senado.
Durante o governo de Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022, as proteções ambientais foram enfraquecidas e o desmatamento avançou na Amazônia brasileira. A campanha de Flávio também evitou criticar o histórico ambiental do pai.
Mercado de carbono
O mercado brasileiro de créditos de carbono funciona hoje de forma voluntária, com empresas que adotam metas próprias de redução de emissões. A regulamentação aprovada em 2024 prepara o país para um mercado regulado, no qual créditos poderão ser usados para cumprir metas obrigatórias de descarbonização e negociados internacionalmente.
O governo Lula vem estimulando a indústria de remoção de carbono com empréstimos e investimentos do BNDES. Durante a campanha, o presidente prometeu ampliar instrumentos como o Eco Invest, que mobilizou R$190 bilhões desde 2024.
Gabriel Silva, diretor executivo da Mombak, afirmou que a agenda climática e a visão estratégica dessa indústria não dependem de partido. Ele espera continuidade por causa do desenvolvimento do mercado regulado e das linhas de crédito do BNDES.
O Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, que reúne empresas como Petrobras e Vale, considera o mercado regulado de carbono fundamental para a economia. Daniela Mignani, diretora executiva de gestão corporativa do conselho, disse que investidores podem direcionar recursos a outros lugares diante de incertezas regulatórias. Em 2025, cerca de US$2,2 trilhões foram investidos globalmente em tecnologias de energia limpa.
Tereza Campello, diretora socioambiental do BNDES, afirmou: “Seria uma burrice econômica você retroagir nessa agenda”. Segundo ela, a demanda por produtos da bioeconomia, como madeira certificada, cacau e café cultivados em áreas reflorestadas, pode dificultar uma reversão. O programa florestal do banco disponibilizou cerca de R$15 bilhões para projetos de recuperação e proteção de florestas locais.







