São José dos Campos, Quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Economia

Pré-precatórios de R$ 14,3 bilhões ligam Master a ações contra a União

Relatório entregue ao Banco Central relaciona 16 processos de usinas a investimentos do banco e a contatos de Daniel Vorcaro no Judiciário.

Pré-precatórios de R$ 14,3 bilhões ligam Master a ações contra a União

O Banco Master tinha pelo menos R$ 14,3 bilhões investidos em direitos creditórios ligados a 16 ações judiciais de usinas de álcool e açúcar contra a União. Os ativos dependiam de decisões dos tribunais para resultar no pagamento de indenizações e gerar lucros para Daniel Vorcaro, dono da instituição.

O levantamento consta de um relatório elaborado pelo escritório Galdino Advogados em 2024 e entregue ao Banco Central para subsidiar a fiscalização do Master. O documento foi pago por Vorcaro e analisou a possibilidade de efetivação dos créditos e o prazo estimado para recebimento dos valores.

As ações das usinas

Os processos têm origem na política de fixação de preços do Instituto do Açúcar e do Álcool durante a década de 1980. As usinas afirmam que foram obrigadas a vender sua produção por valores inferiores aos custos e pedem indenizações à União. Quando reconhecidos pela Justiça, esses valores dão origem a precatórios.

A Advocacia-Geral da União estima a existência de 178 casos relacionados à fixação de preços nos anos 80 e 90. De acordo com o Conselho da Justiça Federal, os precatórios já expedidos no setor sucroalcooleiro somam aproximadamente R$ 47,8 bilhões. A Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2025 estimou em R$ 79,6 bilhões o impacto fiscal dos processos.

Os direitos creditórios, também chamados de pré-precatórios, são negociados antes da conclusão definitiva das ações. Investidores compram a expectativa de recebimento por valores que podem corresponder a cerca de 20% da quantia estimada para o processo. Se as teses favoráveis às usinas forem confirmadas pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal, a União será responsável pelos pagamentos.

Relações com ministros

Mensagens atribuídas a Vorcaro mostram contatos com integrantes do Judiciário e parentes de ministros do STF. Em conversas com Luiz Rennó, diretor jurídico do banco, Vorcaro discutiu o pagamento mensal de R$ 500 mil ao advogado Kevin de Carvalho Marques, filho do ministro Kassio Nunes Marques. O advogado acumulou quase R$ 28 milhões em pouco mais de dois anos de atuação.

Kassio Nunes Marques afirmou que nunca votou a favor de Vorcaro, não trocou mensagens com ele e não pediu nada ao banqueiro. O ministro também disse que uma decisão relacionada a usinas de álcool e açúcar não tinha alcance geral nem criava precedente para outros processos do setor.

O Banco Master mantinha ainda um contrato de R$ 129 milhões com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. O ministro não respondeu aos questionamentos. No Superior Tribunal de Justiça, Vorcaro conversava com o ministro Benedito Gonçalves, que afirmou estar “sempre à disposição” do ex-banqueiro.

Ativos no balanço do banco

O parecer do escritório Galdino foi solicitado pelo Banco Central durante a análise de inconsistências no balanço do Master. O trabalho não avaliou se os preços atribuídos aos direitos creditórios eram adequados, ponto criticado por investigadores.

Segundo o escritório, os valores apresentados correspondiam às perícias dos processos. A banca afirmou que não precificou os casos, mas apenas reproduziu as avaliações registradas nos autos. Dos 16 processos de usinas, oito não tinham valores estimados no relatório.

Entre 13 de outubro e 18 de novembro de 2025, o Master vendeu direitos creditórios avaliados em R$ 2,9 bilhões, conforme escrituras consultadas. Os compradores foram fundos ligados ao banco e a Entre, instituição de pagamento que, segundo a Polícia Federal, operacionalizava pagamentos para a instituição.

Em uma das operações, um direito relativo à usina São João B. Lyzandro foi estimado em R$ 962 milhões e vendido ao fundo GSR. Depois, o mesmo ativo foi transferido ao fundo Krispy por quase R$ 1,1 bilhão. Os dois fundos eram ligados ao ecossistema do Master.

As operações ocorreram enquanto o banco registrava R$ 8 bilhões em precatórios e pré-precatórios no balanço. As investigações identificaram R$ 21 bilhões nesses ativos, incluindo R$ 13 bilhões mantidos na estrutura de fundos de investimento.

Nesta terça-feira (22), o ministro Gilmar Mendes pediu que o julgamento sobre os precatórios do setor sucroalcooleiro fosse levado ao plenário do STF. O caso envolve a discussão sobre o pagamento das indenizações às usinas.

A AGU informa que, em parte dos processos, ainda se discute a existência do direito à indenização. Em outros, o direito foi reconhecido em tese, mas permanecem em debate a realização de perícia individual e o valor de eventual prejuízo. Os precatórios podem ser vendidos com deságio, permitindo ao titular receber antes, enquanto o comprador assume o risco e aguarda o resultado definitivo.

Texto produzido pela Redação Fato Aberto com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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