BUENOS AIRES — O encarregado de negócios da Embaixada do Brasil na Argentina, Eduardo Uziel, classificou como “uma época estranha” o atual momento das relações entre os dois países. A declaração ocorreu durante a cerimônia do Dia da Independência do Brasil, realizada no Teatro Colón, em Buenos Aires.
O discurso foi alinhado com o embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli, chamado a consultas em Brasília, e com o chanceler Mauro Vieira. Sem citar diretamente Javier Milei em todos os trechos, Uziel fez referências críticas à postura do presidente argentino em relação a Luiz Inácio Lula da Silva e às instituições brasileiras.
O diplomata defendeu que a relação bilateral seja preservada apesar das divergências entre os governos. “Uma amizade que independe dos governos e que é maior do que qualquer fantasia ou mapa bicolor”, afirmou. Em outro trecho, disse que a amizade entre Brasil e Argentina deveria ser mais forte que qualquer “mesquinharia ou temporária miopia”.
Redução do nível diplomático
Bitelli foi chamado a consultas em Brasília em 26 de julho, depois de Milei insultar Lula durante o lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, em São Paulo. Na ocasião, o presidente argentino chamou Lula de “ladrão”, “corrupto” e “presidiário”.
Milei também atacou Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal, por não ter autorizado uma visita do presidente argentino a Jair Bolsonaro, que cumpre sentença de 27 anos por tentativa de golpe de Estado. Os ataques ocorreram ao lado de Pablo Quirno, ministro das Relações Exteriores da Argentina.
Em 4 de agosto, após novas agressões de Milei contra Lula, Mauro Vieira manteve Bitelli em Brasília e deixou a representação brasileira em Buenos Aires sob a chefia de um encarregado de negócios. A Argentina adotou medida equivalente em sua representação em Brasília.
Posição sobre as Malvinas
Uziel também reafirmou o apoio brasileiro à soberania argentina sobre as ilhas Malvinas. Segundo ele, essa posição é mantida pelo Brasil desde 1833 e representa um exemplo de política de Estado guiada por convicção.
A cerimônia em Buenos Aires não contou com integrantes do governo argentino, embora autoridades tenham sido convidadas. A participação de um ministro, especialmente Pablo Quirno, poderia indicar uma tentativa de retomada da relação, conforme avaliação atribuída a Mauro Vieira. Esse gesto, no entanto, ficou para depois das eleições, condicionado ao resultado.







