O El Niño voltou ao Pacífico com intensidade que pode colocá-lo entre os quatro episódios mais fortes dos últimos 70 anos. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê o pico do fenômeno para dezembro e indica probabilidade próxima de 100% de que ele persista até fevereiro de 2027.
No Peru, o aquecimento do oceano já derrubou a pesca da anchova. O Instituto do Mar (Imarpe) registrou temperaturas até 6 °C acima da média em algumas áreas marítimas. Como a espécie se reproduz em águas frias e ricas em nutrientes, os peixes migraram para regiões profundas, fora do alcance das redes.
O governo peruano encerrou a temporada de pesca em 19 de agosto. Em maio de 2026, foram capturadas 32.800 toneladas de anchova, contra 1,3 milhão de toneladas no mesmo mês de 2025. A atividade reúne cerca de 8 mil pescadores industriais e também sustenta postos de trabalho em terra.
A presidente da Sociedade Nacional de Pesca, Jessica Luna, afirmou que o setor sofreu um “golpe muito duro”. Uma segunda temporada normalmente começaria em novembro, mas sua realização é incerta.
Impactos climáticos e no trabalho
A OMM classificou o El Niño como um fenômeno de intensidade muito forte. Em algumas áreas, as temperaturas da camada subsuperficial do oceano ficaram 8 °C acima da média de agosto. Os especialistas já usam a expressão “Super Niño” para descrevê-lo. Apenas três episódios desse tipo foram registrados desde o início das medições modernas: 1982-83, 1997-98 e 2015-16.
Os efeitos variam conforme a região. Seca e calor predominam na América Central, no Caribe, no norte da Colômbia e da Venezuela, além do corredor seco centro-americano. No Panamá, a falta de chuvas levou as autoridades do Canal a reduzir o tráfego marítimo.
Em sentido oposto, chuvas fortes e inundações atingem áreas do Equador, do Peru, do Chile, do sul do Brasil, do Uruguai, do Paraguai e do norte da Argentina. Em julho deste ano, Santiago registrou 101,5 mm de chuva em dois dias, o maior volume para julho em quarenta anos, conforme o texto-fonte.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertou para o impacto do El Niño 2026-27 sobre o emprego na América Latina. Construção, logística, transportes, turismo e produção de energia estão entre os setores afetados. A entidade também apontou risco de aumento do trabalho infantil em famílias vulneráveis.
No Peru, pescadores relataram falta de apoio e mudança de profissão. Pedro Martin, representante de um sindicato, disse: “Não recebemos nada, nem do Estado”. Alguns passaram a trabalhar como taxistas ou entregadores de comida. Em Chimbote, o pescador Santiago Bocanegra afirmou que integrantes do sindicato foram para o transporte público, a construção civil e as minas.
Perdas agrícolas na América Central
Um relatório da Oxfam e da Ação Contra a Fome, elaborado em julho e agosto, descreveu a situação no corredor seco, que inclui Guatemala, El Salvador, Honduras e Nicarágua. Cerca de 10 milhões de pessoas vivem na região, em sua maioria dependentes da agricultura de subsistência.
O levantamento analisou 354 grupos comunitários, que reúnem 91 mil famílias rurais, em 58 municípios de Guatemala, El Salvador e Honduras. Das 73 mil propriedades que plantaram milho no primeiro ciclo de 2026, cerca de 70 mil relataram perdas nas colheitas. O feijão também foi severamente afetado, e mais de 23 mil famílias informaram redução no acesso à água.
Segundo Iván Aguilar, responsável humanitário da Oxfam na América Central, 78,6% das famílias avaliadas perderam praticamente 100% da produção. Plantações de café também foram destruídas, reduzindo a oferta de trabalho rural.
Na Guatemala, agricultores relataram meses de chuvas escassas. Em Jocotán, José Hernández disse que a colheita de milho e feijão foi totalmente perdida em sua comunidade. As previsões para setembro e outubro indicam continuidade do tempo seco.
A quebra da produção elevou os preços dos alimentos básicos entre julho-agosto de 2025 e julho-agosto de 2026: de 11% a 54% na Guatemala, de 12% a 40% em Honduras e até 85% em El Salvador, no caso do açúcar. O relatório afirma que dezenas de milhares de famílias precisam de ajuda alimentar ou financeira.
Entre maio e julho de 2026, foram registrados 6.212 movimentos migratórios envolvendo ao menos um integrante das famílias analisadas. Vinte por cento tiveram caráter internacional.
O El Niño é um fenômeno natural que aquece o oceano, enquanto o aquecimento global aumenta a temperatura do mar pelo acúmulo de calor na atmosfera. Cerca de 90% desse calor é absorvido pelo oceano. O último episódio ocorreu em 2023-2024, e 2024 foi o ano mais quente da história, conforme as informações apresentadas pelas organizações citadas.






