CEUTA — A polícia espanhola transferiu nesta sexta-feira (18) migrantes que estavam havia semanas em condições precárias nas praias de Ceuta para abrigos temporários instalados no porto do enclave, no norte da África. A estrutura tem capacidade para até 1,7 mil pessoas e oferece chuveiros, banheiros, alimentação e camas, segundo a delegação do governo de Ceuta.
A operação começou por volta das 5h30, no horário local. Houve tumulto quando muitas pessoas tentaram garantir lugar no novo alojamento. A polícia disparou balas de borracha para o alto e usou cassetetes antes de retomar a transferência após a situação se acalmar.
Por volta do meio-dia, as vagas preparadas estavam ocupadas, e a operação foi encerrada, informou uma fonte governamental. Com a nova estrutura, o número de vagas em espaços de acolhimento temporário no enclave chegou a 6.000.
A maioria dos migrantes é formada por homens e jovens. Como os alojamentos foram planejados para homens adultos, os menores de idade estão sendo separados e levados para locais distintos. Três representantes de organizações não governamentais disseram que as autoridades demoraram a oferecer acomodação e que os centros abertos até então não comportavam todas as pessoas que precisavam de atendimento. Dois deles avaliaram que o governo espanhol esperava o retorno voluntário da maioria ao Marrocos.
Crise política e humanitária
A chegada de dezenas de milhares de migrantes a Ceuta no final de julho, incluindo muitos menores, provocou uma crise no território, que tem cerca de 80 mil habitantes. O episódio também elevou a tensão entre o governo do primeiro-ministro socialista Pedro Sánchez, a oposição de direita e extrema direita e a União Europeia.
O Partido Popular e o Vox pressionam pela expulsão ao Marrocos de todas as pessoas em situação irregular que chegaram ao enclave. O líder do PP, Alberto Núñez Feijóo, criticou a condução da operação. O líder do Vox, Santiago Abascal, defendeu que os migrantes deixassem o território correndo.
Cerca de 70 mil migrantes entraram em Ceuta nos dias 30 e 31 de julho. A maioria retornou ao Marrocos nas horas seguintes, mas vários milhares permaneceram no enclave. Desde então, a situação foi acompanhada por episódios de violência e manifestações quase diárias de moradores, que pedem o retorno à normalidade.
As autoridades precisam identificar cada pessoa para avaliar se há direito a asilo na Espanha ou iniciar o protocolo de devolução ao Marrocos. Não se sabe o número exato de migrantes que estavam nas praias, mas a estimativa é que ele supere a capacidade da nova estrutura.
A transferência ocorreu algumas horas depois de um tribunal rejeitar o pedido de um sindicato de policiais para impedir o deslocamento às tendas instaladas no porto. O governo de Pedro Sánchez assumiu o controle da instalação após a autoridade portuária de Ceuta se recusar a permitir a operação. O local era administrado pela autoridade local, comandada pelo Partido Popular.
As autoridades locais estimam em cerca de 13 mil o número de pessoas que permaneceram em Ceuta, enquanto o governo central considera que a cifra é menor. Pedro Sánchez também é questionado pela oposição sobre as informações disponíveis em Madri antes da chegada em massa e sobre o papel do Marrocos nas relações com a Espanha.







