Os juros dos financiamentos imobiliários nos Estados Unidos chegaram a 7% nesta semana, enquanto os rendimentos dos títulos do governo americano atingiram os maiores níveis em anos. A taxa média das hipotecas de 30 anos avançou cerca de um ponto percentual em relação ao período anterior ao início da guerra com o Irão e alcançou o maior patamar desde a posse de Donald Trump, em janeiro de 2025.
A Treasury de 30 anos chegou a aproximadamente 5,5%, o nível mais alto desde 2004. Já o rendimento do título de 10 anos, usado como referência para as hipotecas americanas, atingiu uma marca não observada desde 2007. A alta ocorreu com a elevação dos preços do petróleo, que reforçou as preocupações com inflação persistente e crescimento da dívida pública.
Alívio limitado na Europa
Na sexta-feira, os rendimentos dos títulos soberanos europeus recuaram depois de uma forte onda de vendas no início da semana. A taxa do título francês de 10 anos ficou em torno de 4,67%, ante cerca de 4,7%. Na Alemanha, o rendimento do título de 10 anos caiu de 3,61% para perto de 3,59%.
A diferença entre os custos de financiamento de França e Alemanha para 10 anos superou 110 pontos-base durante a semana. O indicador é usado para medir o prêmio de risco associado à França e alcançou o maior nível desde a crise da dívida da zona euro em 2012.
A pressão sobre os títulos franceses está relacionada às preocupações com a dívida do país e aos riscos eleitorais, agravados pela redução da nota de crédito da França pela Scope. Os investidores também avaliam a possibilidade de uma segunda volta presidencial em 2027 entre a extrema-direita e a extrema-esquerda. O custo do seguro contra um eventual calote da dívida francesa chegou ao maior nível em quase uma década.
Inflação afeta ações e títulos
A queda simultânea de ações e títulos chamou atenção porque a renda fixa costuma ser procurada como proteção quando os mercados acionários recuam. Para Nick Saunders, presidente-executivo da plataforma de investimentos online Webull UK, “as obrigações e as ações estão a cair por causa da inflação”.
Segundo Saunders, choques de energia e a guerra elevaram os preços ao mesmo tempo que o crescimento perdeu força. Como os juros não estão caindo, os títulos se tornam menos atraentes como ativo de proteção. Ele comparou o cenário ao início da década de 1970, quando os rendimentos dos títulos britânicos subiram enquanto as ações recuaram 73%, mas afirmou que hoje as economias dependem menos do petróleo e os mercados de trabalho conseguem absorver melhor uma inflação gradual.
Títulos indexados à inflação, ouro e outros ativos com pouca correlação com ações podem oferecer proteção, embora Saunders tenha dito que “não faça sentido abandonar por completo as obrigações”.
A Oxford Economics avalia que o pico dos juros deve ser temporário, em grande parte por causa da revisão das expectativas sobre a resposta da política monetária ao aumento dos preços da energia. Para os economistas-chefes Ricardo Amaro e Daniel Kral, a maioria dos governos consegue suportar juros maiores porque a dívida tem prazo médio longo.
França e, em menor grau, Itália são exceções. Em um cenário severo, os dois países teriam de apertar a política fiscal em mais de um ponto percentual do PIB para compensar aumentos persistentes dos custos de juros. Espanha, Grécia e Portugal estão em posição mais favorável para absorver essa pressão.






