PARIS — O papa Leão XIV afirmou, na sexta-feira, que a inteligência artificial deve permanecer subordinada às necessidades humanas e alertou para o risco de a tecnologia ampliar a dominação e a injustiça. O discurso foi realizado na sede da UNESCO, durante uma visita de quatro dias à França.
O pontífice disse que o avanço da IA pode empobrecer as ideias e as relações entre as pessoas por meio de um processo de desumanização. Também criticou a prioridade dada à produtividade e afirmou que avaliar indivíduos apenas pela eficiência pode comprometer o respeito à dignidade humana e levar ao descarte de quem já não é considerado produtivo.
Leão XIV defendeu ainda que as tecnologias emergentes tenham salvaguardas para proteger crianças. Para ele, a vulnerabilidade dos jovens não deve ser transformada em oportunidade de exploração. A proteção infantil também está no centro de debates sobre medidas contra riscos online, incluindo a proibição de celulares nas escolas e a proposta da Comissão Europeia chamada Kids Act, que poderá limitar o acesso de menores de 13 anos às redes sociais.
A inteligência artificial se tornou um tema central do pontificado. Em maio, o papa publicou sua primeira encíclica, intitulada “Magnifica humanitas”, com 42.300 palavras. O documento aborda riscos da IA para os seres humanos e defende maior supervisão regulatória.
Guerra, cooperação e paz
Na UNESCO, o papa também relacionou o desenvolvimento científico aos conflitos armados. Ao mencionar o lema da organização sobre a construção das defesas da paz nas mentes de mulheres e homens, afirmou que a humanidade compreendeu que o progresso científico separado da sabedoria pode se transformar em arma de destruição.
Leão XIV citou os conflitos no Oriente Médio e a invasão da Ucrânia pela Rússia. Também avaliou que as instituições internacionais são necessárias para enfrentar desafios que nenhum Estado consegue resolver sozinho, mas passam por uma crise de eficácia quando o diálogo é tratado como obstáculo à ação. Em resposta, pediu mais confiança na capacidade de as diferenças não serem necessariamente uma ameaça e de o diálogo produzir benefícios coletivos.
A cooperação internacional enfrenta tensões políticas. Em julho de 2025, a administração Trump anunciou a retirada dos Estados Unidos da UNESCO, decisão que deverá entrar em vigor em dezembro de 2026. A organização foi descrita pela administração como politicamente correta, culturalmente divisiva e distante das políticas apoiadas pelos americanos que elegeram o presidente dos EUA.
Encontro com Macron
Antes do discurso na UNESCO, o presidente francês Emmanuel Macron recebeu o papa no Palácio do Eliseu. O encontro contou com autoridades diplomáticas, bombeiros que atuaram no incêndio da Notre-Dame de Paris e representantes de autoridades religiosas.
Leão XIV reafirmou a importância do direito à vida, que definiu como “o alicerce indispensável de todos os outros direitos humanos”. A posição ocorre em meio a divergências entre a Igreja Católica francesa e políticos. A França incluiu o direito ao aborto em sua Constituição em 2024 e aprovou, no início deste ano, uma lei favorável à morte assistida em situações médicas extremas.
O papa também reafirmou a oposição do Vaticano às armas nucleares e criticou a ideia de que a dissuasão nuclear oferece soluções. Depois do discurso, seguiu para um desfile por Paris, antes das Vésperas na catedral de Notre-Dame de Paris e de uma vigília de oração com jovens no Stade de France, em Saint-Denis.







