O governo do Marrocos negou qualquer participação de suas autoridades na entrada em massa de migrantes em Ceuta e afirmou que não aceitará ser responsabilizado por disputas políticas na Espanha. A declaração ocorre enquanto o primeiro-ministro Pedro Sánchez enfrenta críticas após a divulgação de documentos que registravam alertas prévios sobre a situação migratória no enclave espanhol.
Em comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Marrocos afirmou que nenhum dado ou relatório comprova o envolvimento de autoridades do país. O órgão também declarou que o reino não será usado como instrumento de campanha eleitoral nem como responsável por acertos políticos internos da Espanha.
Mais de 70 mil migrantes atravessaram a fronteira para Ceuta, a pé ou a nado, nos dias 30 e 31 de julho. O território é um dos dois únicos pontos de fronteira terrestre da Europa com a África, junto com Melilla. O episódio provocou mortes e desaparecimentos. Embora a maioria tenha retornado pouco depois, vários milhares permaneceram em Ceuta, inclusive em ruas e praias.
A posição de Rabat foi divulgada depois do vazamento de um relatório policial que mencionava possível tolerância das forças de segurança marroquinas durante a travessia. Sánchez, por sua vez, declarou que não havia evidências da participação do Marrocos, afirmação contestada por integrantes da oposição.
Alertas antes da chegada
Na quarta-feira (9), o governo espanhol publicou 40 relatórios e comunicados produzidos entre 1º e 31 de julho. Os documentos, antes sigilosos, mostram que órgãos do governo, incluindo o Centro Nacional de Inteligência (Cenif), alertaram sobre o crescimento das tentativas de travessia marítima.
Os avisos foram enviados em 29 de julho e indicavam a possibilidade de uma ação simultânea pelo posto de fronteira e pelo mar. Um documento do Cenif registrou comunicações entre grupos de migrantes que planejavam incursões em massa na noite de 29 de julho de 2026.
O órgão também contabilizou quase mil travessias a nado da fronteira marroquina entre 1º e 28 de julho. Em uma nota urgente emitida na tarde de 29 de julho, o Cenif citou a organização de ações de incursão em Ceuta em grupos do Facebook, um deles com mais de 160 mil integrantes.
Sánchez reconheceu a existência dos alertas, mas afirmou que os relatórios descreviam a situação na fronteira sem indicar a dimensão que a crise alcançaria. O primeiro-ministro também disse que os documentos não traziam provas de que o Marrocos tivesse planejado ou provocado o episódio.
A oposição e setores da imprensa discordam. Para os críticos, as informações eram suficientes para mobilizar o Exército e impedir as travessias. Eles sustentam que a falta de reação teria relação com a intenção de preservar as relações entre Madri e Rabat.







