MADRID — Cerca de 70 organizações ligadas ao direito à moradia se reúnem esta semana em Madrid para coordenar uma resposta à crise dos aluguéis e discutir a possibilidade de uma greve europeia de rendas. Participam também grupos dos Estados Unidos e da América Latina.
O encontro é organizado no âmbito da European Action Coalition, rede de movimentos pelo direito à moradia. As entidades pretendem compartilhar estratégias diante do aumento dos aluguéis, da expulsão de moradores de seus bairros, dos despejos e da pressão exercida por imóveis turísticos e contratos temporários sobre a moradia residencial.
A reunião ocorre após o despejo de Maricarmen, uma mulher de 87 anos retirada da casa onde viveu por mais de 70 anos. O caso reacendeu o debate sobre a crise habitacional na Espanha.
Pablo Pérez, porta-voz do Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid, disse que a proposta é compartilhar experiências e buscar uma rota comum. Entre as possibilidades está avaliar uma greve de rendas em escala europeia, sem que exista, por enquanto, uma convocação definida.
Insegurança para inquilinos
O sindicato afirma que a situação atinge idosos, famílias e jovens. Entre os fatores apontados estão a duração dos contratos e a possibilidade de não renovação ou de aumento do aluguel. Famílias podem ser obrigadas a deixar bairros onde vivem há anos, mesmo quando seus filhos estudam ali e suas relações pessoais e sociais estão estabelecidas na região.
Para os jovens, o sindicato destaca o crescimento do aluguel de quartos e dos contratos de curta duração. “De 11 em 11 meses podem expulsar-te ou aumentar a renda”, afirmou Pérez, ao descrever a dificuldade de criar estabilidade e desenvolver projetos de vida.
Investimentos e aluguéis temporários
O Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madrid também critica a atuação de grandes investidores no mercado imobiliário. Pérez afirma que a influência dos fundos não se limita ao número de imóveis que controlam, mas inclui a expansão de uma lógica que trata a moradia como ativo financeiro e busca extrair dela a maior rentabilidade possível.
Na avaliação do porta-voz, essa dinâmica pode aparecer tanto em imóveis de fundos quanto em propriedades de pequenos donos, especialmente por causa da intermediação crescente das imobiliárias.
O sindicato também relaciona a transformação do mercado ao avanço dos apartamentos turísticos e dos contratos temporários. O impacto, segundo Pérez, deve ser analisado pela concentração em determinados bairros, e não apenas pela participação desses imóveis no conjunto habitacional da cidade. Ele cita o centro de Madrid e afirma que o fenômeno avança em direção a bairros periféricos.
Coordenação internacional
Movimentos europeus já haviam se reunido em Barcelona em 2024, quando aprovaram a Declaração de Barcelona. O encontro atual busca ampliar essa coordenação e verificar se organizações de diferentes mercados imobiliários conseguem construir uma estratégia comum.
Pérez afirma que o problema está presente em várias cidades europeias e defende a organização coletiva dos inquilinos. A reunião em Madrid deverá avaliar até que ponto ações articuladas localmente e em nível nacional podem ser levadas para uma escala europeia.






