Um ano depois de França, Reino Unido e outros países ocidentais reconhecerem a Palestina como Estado, a criação do país continua paralisada. Na Cisjordânia, Israel mantém restrições, amplia assentamentos e enfrenta acusações de violência de colonos, enquanto a Autoridade Palestina lida com falta de recursos e pressão por reformas.
Na Assembleia Geral das Nações Unidas de setembro de 2025, outros 11 países anunciaram o reconhecimento da Palestina como Estado de pleno direito. Com isso, o total chegou a 157 países, mais de 80% dos membros da ONU. Também na ocasião, 142 países apoiaram a Declaração de Nova York, favorável à solução de dois Estados para o conflito no Oriente Médio. Israel e os Estados Unidos ficaram fora desse apoio.
Para Omar Awadallah, vice-ministro das Relações Exteriores da Autoridade Palestina, a iniciativa transformou a solução de dois Estados em uma realidade política, mas sua concretização continua dependente do comportamento de Israel. A analista política palestina Ines Abdel Razek avaliou que o reconhecimento não é suficiente sem medidas para apoiar a existência do Estado palestino e impedir ações que dificultem sua criação.
Assentamentos e controle territorial
Desde o início do atual mandato do governo de Benjamin Netanyahu, em dezembro de 2022, Israel legalizou 104 novos assentamentos na Cisjordânia. Eles são considerados ilegais pelo direito internacional. Especialistas também apontam como possível passo rumo à anexação de fato do território palestino a avaliação, pelo ministro israelense da Defesa, Israel Katz, de transferir do Exército para a polícia israelense as competências de manutenção da ordem relacionadas aos colonos.
No início de 2025, Israel instalou cerca de mil barreiras nas entradas de quase todas as aldeias e cidades da Cisjordânia. Nas colinas da região, bandeiras israelenses foram colocadas ao longo de estradas usadas por colonos. Muros receberam frases de incentivo à saída dos palestinos, como “Não há futuro na Palestina”.
Palestinos também denunciam uma política descrita pela expressão “máximo de terras, mínimo de árabes”, usada para caracterizar ações destinadas a expulsar moradores de suas casas. Os ataques de colonos aumentaram, e seus autores quase nunca são levados à Justiça, segundo as denúncias citadas.
Reino Unido, França e Canadá anunciaram sanções contra o comércio com os assentamentos. Especialistas, porém, consideram que o alcance dessas medidas é sobretudo simbólico. Israel reagiu com contramedidas, incluindo o fechamento do consulado britânico em Jerusalém.
Posição de Israel e crise palestina
Benjamin Netanyahu se opõe à criação de um Estado palestino e afirma que isso equivaleria a recompensar o terrorismo após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023. O Exército israelense respondeu ao ataque com uma guerra em Gaza.
“Enquanto eu for primeiro-ministro, não haverá Estado palestino sob controle iraniano, nem em Gaza nem na Judeia-Samaria”, declarou Netanyahu em agosto. Judeia-Samaria é o nome bíblico usado por Israel para a Cisjordânia; o Irã apoia o Hamas e é apontado como principal inimigo de Israel.
O governo israelense também deixou de repassar à Autoridade Palestina receitas alfandegárias arrecadadas em seu nome. Israel congelou as transferências para impedir que os recursos fossem usados em benefício de famílias de autores de ataques contra israelenses. Com sede em Ramallah, a Autoridade Palestina enfrenta falta grave de recursos, além de acusações de corrupção e cobranças internacionais por reformas.
Os efeitos da falta de avanços são percebidos entre palestinos. Adam Bader, empresário de 27 anos, disse que ficou contente com o reconhecimento anunciado em 2025, mas afirmou que, um ano depois, não via progresso. Sameh, engenheiro de informática em Nablus, considerou a Declaração de Nova York um sinal positivo, mas defendeu ações concretas capazes de mudar a realidade dos palestinos.
A participação palestina no cenário internacional também enfrenta obstáculos. Washington voltou a negar neste ano um visto a Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, para que ele participasse da Assembleia Geral da ONU. Para os críticos da política atual, a solução de dois Estados se tornou um slogan diplomático sem efeitos suficientes no território.







