AÇORES — Etiquetas encontradas em materiais de pesca nas ilhas do Faial e do Pico permitiram rastrear parte do plástico que chega às praias do arquipélago. Os registros indicam que os objetos foram usados nos Estados Unidos e no Canadá, a mais de 3.000 km de distância, e que alguns permanecem no ambiente desde 1983.
O levantamento foi conduzido por investigadores da Universidade dos Açores, que monitoram o lixo marinho desde 2010. A coleta passou a incluir moradores e outros pesquisadores entre 2017 e 2025. Nesse período, mais de 1.500 objetos foram encontrados nas duas ilhas.
Registros apontam a origem
Entre as peças recolhidas estão partes de covos, armadilhas em forma de gaiola usadas para capturar lavagantes, além de funis, cantos, fechos e etiquetas. Dos rótulos com inscrições legíveis, 63% tinham origem nos Estados Unidos e 37% no Canadá.
Nos Estados Unidos, 80% das etiquetas estavam relacionadas ao Maine e 11% ao Massachusetts. No Canadá, os registros mencionavam a província da Terra Nova e Labrador. As etiquetas são obrigatórias na atividade e trazem informações sobre a origem e a data do material.
Christopher Pham, investigador da Universidade dos Açores, afirmou que a identificação confirmou o deslocamento de resíduos entre a costa norte-americana e o arquipélago. Segundo ele, correntes, ventos e ondas ajudam a explicar esse percurso no Atlântico.
A maior parte das etiquetas tinha entre sete e 13 anos. A mais recente era de 2023, enquanto a mais antiga, de 1983, indicava que o plástico havia sido colocado no mar há mais de 40 anos. Pham disse que os materiais podem permanecer no ambiente por muitas décadas sem se fragmentar.
Resíduo chega a outras áreas
O estudo se concentrou no Faial e no Pico, ilhas situadas a cerca de 1.600 km do continente europeu. Os investigadores afirmam que materiais semelhantes também são frequentes na costa portuguesa, na Inglaterra e na Irlanda.
A pesca do lavagante tem grande peso econômico nos Estados Unidos e no Canadá. Em 2020, as exportações do crustáceo pelos dois países somaram cerca de 1,74 bilhão de euros. As estimativas indicam que três milhões de covos são colocados todos os anos nas proximidades da costa dos Estados Unidos e dois milhões no Canadá.
Outros resíduos de pesca também aparecem nas praias dos Açores, mas nem sempre podem ser associados a um local específico. Redes de arrasto, por exemplo, podem ser usadas em diferentes áreas. Também são recolhidas garrafas, bitucas, solas de sapato, isqueiros e pequenos fragmentos plásticos, incluindo pedaços de cerca de 2 centímetros.
Identificação é apontada como medida
Para os pesquisadores, a identificação dos equipamentos permite agir na origem do problema. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura recomenda que materiais de pesca sejam etiquetados.
A equipe propõe melhorar a gestão desses equipamentos, criar incentivos para a devolução de materiais antigos e estabelecer pontos de coleta. Também pretende analisar de forma sistemática a densidade e o volume do lixo associado à pesca do lavagante, para verificar se a quantidade está aumentando ou diminuindo.
O grupo afirma que o estudo serve para alertar as autoridades dos Estados Unidos e do Canadá sobre a necessidade de reduzir a entrada de plástico no mar.







