SANTARÉM — O Tapajós de Fato decidiu não cobrir as eleições de 2026 após uma sequência de ameaças, perseguições e episódios de violência contra integrantes da equipe. O site de Santarém havia passado parte deste ano planejando a cobertura e buscando financiamento, mas abandonou o projeto antes da primeira reportagem.
Criado em 2020, o veículo independente se tornou conhecido por abordar violações sociais e ambientais na Amazônia. A equipe não vai acompanhar os problemas da região, discutir soluções ou investigar possíveis vínculos de candidatos com o garimpo, o agronegócio e grandes obras.
A decisão foi tomada depois de casos registrados ao longo dos últimos anos. Durante a eleição presidencial de 2022, uma cabeça de gato foi deixada no terreno onde os jornalistas estacionavam a caminhonete de reportagem. Um bilhete trazia o nome de Marcos Wesley Pedroso, fundador do site, e dizia que ele seria a próxima vítima. Dias antes, os quatro pneus do veículo haviam sido rasgados.
Em outro episódio, uma comunicadora foi atacada com uma faca. O agressor não foi identificado, e não foi possível determinar se o ataque tinha relação com o trabalho jornalístico. Os casos foram denunciados à Polícia Civil e ao Ministério Público, mas não há informação conclusiva sobre os autores ou sobre uma ligação entre os episódios.
A cobertura eleitoral de 2022 foi mantida. O site entrevistou candidatos progressistas do oeste do Pará e tratou de garimpo, desmatamento, mudanças climáticas e direitos dos povos tradicionais. Também acompanhou mobilizações sobre agroecologia e agricultura familiar, analisou os eleitos no Pará e cobriu atos bolsonaristas diante de uma unidade do Exército. Em 2024, porém, suspendeu a cobertura das eleições municipais.
“Quando é melhor não falar, por uma questão de sobrevivência, na verdade, quem perde é a sociedade”, afirmou João Paulo Serra, coordenador de projetos. Marcos disse que decidiu recuar novamente em 2026 e deixou Santarém após as ameaças e um diagnóstico de depressão.
Jornalismo comunitário
O Tapajós de Fato surgiu a partir de um encontro de comunicadores rurais, em 2019. Em julho de 2020, Marcos e outra jornalista criaram as redes sociais do veículo e depois lançaram o site. A experiência dos avós, que dirigiram o sindicato dos trabalhadores rurais de Belterra, influenciou a atuação voltada às comunidades da região.
O site publicou conteúdos sobre conflitos fundiários, mineração, soja, clima e direitos dos povos tradicionais. Também produziu reportagens, podcasts e uma campanha sobre o Projeto de Assentamento Agroextrativista Lago Grande, área de uso coletivo pressionada pela extração ilegal de madeira e minérios.
Uma pesquisa acompanhada por Maria Cleidejane Esperidião e Thayane Guimarães, em junho de 2024, destacou a chamada “escuta profunda”. Repórteres passavam dias nas comunidades, ouviam relatos sobre mudanças no clima e transformavam os depoimentos em cartilhas. Sem internet, áudios eram levados de barco em pen drives para reprodução em alto-falantes.
A equipe também ajudou organizações locais a estruturar departamentos de comunicação e formou jovens comunicadores. Segundo dados do Atlas da Notícia de 2025, o Norte tinha 1.264 veículos jornalísticos, enquanto 193 dos 450 municípios não possuíam nenhum meio de comunicação.
Escalada de intimidações
As ameaças aumentaram em 2021, durante reportagens sobre a venda ilegal de terras em Lago Grande. Depois vieram ameaças de morte por telefone e mensagem. Em 2022, integrantes da equipe relataram roubo, perseguição de carro e um ataque a faca próximo à sede. Jornalistas passaram semanas em hotéis por não se sentirem seguros em casa.
Marcos trocou de endereço seis vezes nos últimos três anos. João Paulo deixou de visitar a mãe durante um período para não revelar aos perseguidores onde ela morava. A equipe, que tinha mais de 20 pessoas em 2022, hoje conta com sete integrantes.
O caso mais recente envolvendo Marcos ocorreu em junho deste ano. Ele encontrou o carro destruído diante de casa e, depois de recuperar imagens das câmeras, viu que dois ciclistas haviam circulado pelo quarteirão antes da colisão. Às 4h28, um automóvel atingiu um carro estacionado e fugiu. Marcos suspeita que o episódio tenha relação com denúncias sobre o uso indevido de agrotóxicos, mas não há confirmação.
Sem a cobertura eleitoral do Tapajós de Fato, João Paulo afirmou que outras pessoas ocuparão esse espaço. “Quando a gente deixa de falar sobre um tema, o outro vai falar, do seu jeito”, disse.








