A saúde mental de médicos e outros profissionais da saúde também precisa fazer parte das discussões do Setembro Amarelo, afirma Caroline Daitx, médica especialista em Medicina Legal e Perícia Médica. Para ela, ansiedade, depressão, esgotamento e comportamento suicida podem atingir pessoas que diariamente orientam, diagnosticam, acolhem e tratam pacientes.
Daitx relata ter trabalhado em plantões e hospitais públicos e privados, em uma rotina marcada por noites sem dormir, decisões sob pressão, pacientes graves, famílias angustiadas, falta de estrutura e cobrança por produtividade. Na saúde pública, ela aponta a combinação entre escassez de recursos e demanda elevada. Na rede privada, menciona vínculos fragmentados e contratos como pessoa jurídica, que podem levar médicos a acumular hospitais, clínicas e plantões, com pouco espaço para recuperação.
Uma pesquisa brasileira publicada em 2024 no Jornal Brasileiro de Psiquiatria, voltada a médicos residentes, reuniu estudos que indicam prevalências importantes de depressão. O levantamento também registra que até 8% podem relatar ideação suicida no período de um ano. As taxas variam, mas, segundo Daitx, reforçam a necessidade de reconhecer o sofrimento psíquico entre profissionais em formação.
Exigência da residência e cultura de resistência
A legislação prevê até 60 horas semanais para a residência médica, incluindo plantões, folga e descanso após o plantão noturno. Daitx observa, porém, que escalas precisam ser cobertas, pacientes continuam chegando e intercorrências não seguem horários, o que pode ampliar a distância entre a regra e a rotina vivida.
A autora também questiona uma cultura que associa dormir pouco à dedicação, suportar plantões consecutivos à força e não reclamar à vocação. Para ela, suportar sofrimento não deve ser tratado como medida de competência. O fato de um médico continuar atendendo e cumprindo a agenda também não comprova que esteja bem, assim como o sofrimento psíquico não significa automaticamente incapacidade.
Daitx ressalta que ansiedade, depressão e comportamento suicida têm múltiplos fatores. A profissão, isoladamente, não explica o adoecimento, mas carga horária, autonomia, descanso e previsibilidade influenciam essa experiência. Mudanças na carreira, como reduzir plantões, trocar de serviço ou área e combinar atividades, podem ajudar a aproximar o trabalho da vida desejada, mas não substituem avaliação e tratamento adequados.
A reflexão proposta para o Setembro Amarelo é incluir os profissionais na pergunta sobre quem precisa de cuidado. Quem cuida também pode adoecer e precisar de ajuda.








