SÃO PAULO — Um estudo com pacientes acompanhados em serviços de oncogenética de São Paulo identificou diferenças entre portadores de alterações hereditárias nos genes BRCA1 e BRCA2. Entre os participantes que desenvolveram câncer, o primeiro tumor foi diagnosticado mais cedo em pessoas com variantes no BRCA1 do que naquelas com alterações no BRCA2.
A pesquisa analisou 412 adultos com variantes patogênicas ou provavelmente patogênicas nos dois genes. Os pacientes foram acompanhados no Hospital Sírio-Libanês e na BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo entre outubro de 2008 e janeiro de 2024. Do total, 257 (62,4%) tinham registro de pelo menos um diagnóstico de câncer, que somou 336 tumores primários.
O câncer de mama respondeu por 66,7% dos tumores registrados. Na sequência, apareceram os tumores de ovário e trompa de Falópio, com 14,9%. Também foram identificados cânceres de próstata, pulmão, pâncreas, tireoide e melanoma. Entre os pacientes que tiveram câncer, 24,9% apresentaram dois ou mais tumores primários durante o acompanhamento.
A mediana de idade no diagnóstico do primeiro câncer foi de 39 anos entre portadores de BRCA1 e de 47 anos entre portadores de BRCA2. No segundo tumor primário, as medianas foram de 43 anos e 62 anos, respectivamente.
Homens também estão entre os pacientes de risco
O estudo indica que os efeitos das alterações nos genes não se limitam ao câncer de mama feminino. Entre homens com variantes em BRCA2, os tumores de mama masculina e próstata foram os mais frequentes, cada um correspondendo a 30,4% dos registros nesse grupo. Também houve casos de câncer de pulmão e pâncreas.
Gustavo Cardoso Guimarães, coordenador geral dos Departamentos Cirúrgicos Oncológicos da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, afirmou que a identificação de uma alteração genética deve ser acompanhada por um plano de cuidado adaptado ao gene, ao sexo, à idade, ao histórico familiar e aos tumores já registrados. “Não basta descobrir a mutação: é necessário transformar essa informação em uma estratégia de acompanhamento, prevenção e, quando o câncer já está presente, em uma avaliação terapêutica individualizada”, disse.
Variantes recorrentes
A pesquisa também identificou variantes genéticas recorrentes. Entre portadores de BRCA1 com histórico de câncer, as alterações c.5266dupC e c.3331_3334del representaram juntas 32,1% dos registros de variantes. No BRCA2, a distribuição foi mais heterogênea, sem uma variante predominante.
Os pesquisadores afirmam que esse padrão pode orientar a investigação genética em contextos específicos, mas não deve substituir o sequenciamento amplo quando houver indicação clínica. O estudo também defende aconselhamento genético contínuo e estratégias de vigilância adaptadas ao gene e ao sexo do paciente.
Para mulheres com alterações em BRCA1 ou BRCA2, os dados podem orientar protocolos de acompanhamento das mamas e, no caso do BRCA1, a discussão individual de medidas para reduzir o risco de tumores ginecológicos. Para homens com BRCA2, o acompanhamento deve considerar especialmente os riscos de câncer de próstata e de mama masculina.
Os autores ressaltam que os resultados, obtidos em dois centros privados de referência em São Paulo, não podem ser automaticamente ampliados para toda a população brasileira. Novos estudos com dados clínicos, genômicos, de ancestralidade e de acompanhamento podem ajudar a estimar os riscos associados às diferentes variantes encontradas no país.







