RECIFE — A pesca do sururu deixou de garantir o sustento de famílias em áreas tradicionais do Recife. Na Ilha de Deus, na Comunidade do Bode e em Brasília Teimosa, pescadores relatam que precisam percorrer trechos mais distantes, encontram mais lixo e retornam com menos marisco. Pesquisadores associam a redução a uma combinação de poluição, assoreamento, mudanças nas chuvas, aquecimento da água e retirada de exemplares pequenos.
Cíntia Alves, 49 anos, criou sozinha os dois filhos com o dinheiro obtido na maré. Hoje, afirma que não consegue mais viver da pesca na Ilha de Deus. Para encontrar sururu, os pescadores vão para áreas depois da ponte do Pina, nos arredores da escultura de Brennand, na ponte do Limoeiro e até em Olinda.
Na Comunidade do Bode, Juliana Maria dos Santos, 45 anos, começou a pescar aos sete anos com os pais. Ela diz que, em uma ida à maré no final de julho, conseguiu dois quilos do marisco, quantidade que considera muito baixa. A procura pode levar duas ou três horas antes do mergulho.
Renda menor e trabalho mais demorado
O sururu tem venda fácil, mas o retorno financeiro é limitado. Quando o marisco está magro, uma galé cheia produz cerca de três quilos de massa limpa. Desse volume, R$ 30 ficam com quem faz a catação, enquanto o quilo é revendido por entre R$ 25 e R$ 30.
A redução também mudou o papel das mulheres na atividade. Segundo Sandra da Silva Lima, presidente da colônia de pescadores Z-1, os homens fazem cada vez mais os mergulhos e levam o material para as mulheres beneficiarem em terra. Em todas as catações acompanhadas na Ilha de Deus e no Bode havia lixo misturado ao marisco, incluindo embalagens, vidro e agulhas. A separação ficou mais lenta e arriscada.
Edilene Maria Alves da Silva, 58 anos, relata que teve uma doença dermatológica depois de trabalhar com o sururu e a lama. Ela ficou duas semanas afastada do beneficiamento. A pesquisadora Alyne Nascimento afirma que os problemas não devem ser tratados apenas como uma questão de uso de luvas: para ela, a prioridade é enfrentar a poluição que contamina os locais de coleta.
Alterações no estuário
A oceanógrafa Mônica Costa, professora e pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), afirma que há pelo menos uma dúzia de fatores atuando ao mesmo tempo na quantidade de sururu da bacia do Pina. Entre os mais citados estão a falta de saneamento, o descarte de lixo e o assoreamento dos rios.
Costa explica que o acúmulo de sedimentos alcança toda a bacia do rio Capibaribe. Por isso, segundo ela, dragagens isoladas não resolvem o problema. A erosão e a falta de mata ciliar levam terra aos rios, em um processo gradual que altera o estuário.
O biólogo Gilberto Rodrigues, professor de ecologia na UFPE, relaciona a queda na produção às mudanças no regime de chuvas. O sururu precisa alternar períodos dentro e fora da água para se alimentar, crescer e metabolizar. Quando esse equilíbrio é rompido, o marisco pode morrer e ficar menor. Rodrigues afirma que já não se encontra sururu gordo como antes.
Costa também aponta o aquecimento dos oceanos como uma pressão adicional sobre a pesca artesanal. A pesquisadora considera que a atividade pode continuar, mas talvez não seja mais suficiente como principal fonte de renda das famílias.
Pesquisa identifica perda de produção
Nenhum órgão público registra quanto sururu é retirado dos estuários do Recife. A estatística pesqueira nacional ficou 13 anos sem publicação, e o painel lançado pelo Ministério da Pesca em 2025 não inclui mariscos catados em rios urbanos.
O projeto Rede Maris, financiado pelo CNPq e iniciado em 2024, reúne universidades do Nordeste para investigar a pesca artesanal. Ana Mirtes Ferreira, pescadora e estudante de biologia, participou do trabalho de campo na Ilha de Deus. O acompanhamento ocorreu de agosto de 2025 a julho deste ano e registrou que os pescadores passam mais tempo procurando o marisco, além de relatarem a retirada de mais lixo do que sururu.
A pesquisa também identificou que muitos pescadores não querem transmitir o conhecimento tradicional aos filhos. Entre os motivos estão a falta de segurança, a baixa valorização do produto e o risco de acidentes com material hospitalar e de construção. A pesquisa completa deve ser publicada no começo do próximo ano.
Pesca sem período de descanso
A sobrepesca é outro fator apontado por pescadores e pesquisadores. Rosiélio Pereira de Paula, 80 anos, afirma que mais pessoas passaram a ir à maré sem conhecer os ciclos do sururu. Edvalda Ramalho, conhecida como Valma, presidente da Colônia de Pescadores Z-20, diz que retirar mariscos abaixo do tamanho adequado pode impedir a recomposição do estoque.
A pesca do sururu não tem defeso específico no Recife. Valma afirma que o marisco se reproduz durante todo o ano, com maior intensidade no período chuvoso, mas os pescadores não conseguem interromper a atividade sem receber apoio financeiro. Para ela, seria necessário um benefício semelhante ao seguro pago durante o defeso da lagosta.
O programa estadual Chapéu de Palha atende pescadores e pescadoras artesanais, mas tem regras próprias. Em 2026, o benefício chegou a até R$ 387,94, em até cinco parcelas. Para quem também recebe o Bolsa Família, o valor ficou limitado a R$ 150. No mesmo ano, 6.032 pessoas de 58 municípios foram beneficiadas, incluindo 600 no Recife, com investimento de aproximadamente R$ 6,4 milhões.
A Secretaria de Planejamento, Gestão e Desenvolvimento Regional informou que o pagamento ocorre de maio a agosto, período associado à escassez natural dos estoques de sururu e marisco e aos meses mais chuvosos. Para receber, é necessário comprovar a atividade por meio do Registro Geral da Pesca e não receber aposentadoria, pensão do INSS, seguro-desemprego ou seguro-defeso.
Risco de espécie invasora
Pescadores também relatam a presença de um sururu branco, encontrado nas proximidades do shopping Rio Mar, que teria pouca carne e não seria adequado para consumo. Gilberto Rodrigues diz que pode se tratar de uma espécie invasora já registrada em Alagoas, embora ainda não tenha confirmação de sua presença no Recife.
Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) indicou que esse marisco tolera melhor do que o nativo água poluída, pouco oxigênio, muito sedimento e temperaturas e salinidade elevadas. Como as duas espécies ocupam o mesmo habitat, o sururu branco pode competir com o nativo.
A combinação entre degradação ambiental, queda na renda, riscos à saúde e ausência de um defeso específico ameaça a continuidade da pesca artesanal. Érika Romão, representante voluntária da colônia Z-1 na Ilha de Deus, afirma que já não sabe se poderá criar a filha na mesma atividade que aprendeu com o pai.








