Mais de 80% do comércio mundial é transportado por via marítima, mas as rotas usadas pelos navios frequentemente atravessam áreas de alimentação, reprodução e migração de baleias e golfinhos. A expansão portuária e o crescimento do tráfego marítimo no período pós-pandemia aumentaram a sobreposição entre as atividades logísticas e os habitats de espécies marinhas.
Pressão sobre os animais e a pesca
No Brasil, a situação é observada em regiões de tráfego intenso, como a Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e os acessos aos portos de Santos e São Sebastião, em São Paulo. Nesses locais, o transporte de mercadorias reduz o espaço disponível para a fauna marinha.
O boto-cinza (Sotalia guianensis), encontrado no Rio de Janeiro, enfrenta a pressão combinada dos portos e da poluição. O deslocamento constante de embarcações de grande porte e o ruído produzido por seus motores subaquáticos podem levar os cetáceos a mudar suas rotas naturais.
A alteração também afeta a pesca artesanal. Quando baleias, golfinhos e cardumes deixam determinadas áreas por causa do estresse acústico e do risco de colisões, pescadores podem perder seus pesqueiros tradicionais. A concentração dos animais em espaços menores aumenta ainda o risco de morte em redes de pesca, em um fenômeno chamado captura incidental, ou bycatch.
Uma situação semelhante foi descrita em Nova York, onde o aumento da população de baleias colocou os animais em contato com o tráfego intenso da baía. O caso é apresentado como referência para problemas enfrentados na América do Sul.
Monitoramento e responsabilidades
Cientistas avaliam a sobreposição entre navios e cetáceos com telemetria, que usa rastreadores instalados nos animais, monitoramento acústico por hidrofones, acompanhamento do tráfego de embarcações e análises estatísticas. Esses métodos permitem cruzar a movimentação dos navios com a presença de baleias e golfinhos e realizar estudos de risco de colisão.
O monitoramento indica que as Unidades de Conservação marinhas brasileiras são insuficientes ou estão mal posicionadas para proteger a fauna da pressão portuária. A fiscalização e a gestão das águas envolvem diferentes instituições. A Marinha do Brasil responde pela segurança da navegação e pelas águas jurisdicionais. O IBAMA é responsável pelo licenciamento ambiental de grandes portos, enquanto o ICMBio administra as Unidades de Conservação. A ANTAQ regula o setor de transportes aquaviários.
O Planejamento Espacial Marinho é apontado como instrumento para coordenar a atuação dessas entidades e reduzir lacunas legais e administrativas na proteção da biodiversidade.
Medidas para reduzir colisões
Entre as medidas consideradas mais eficientes estão pequenos desvios nas rotas comerciais e a redução da velocidade dos navios em habitats críticos. No Brasil, o programa Whale Guardians, resultado de uma parceria entre a Great Whale Conservancy e instituições nacionais de conservação, elaborou diretrizes de navegação voltadas à redução de riscos.
Nos acessos a São Sebastião e Vitória, as recomendações voluntárias informam os comandantes sobre a presença sazonal de baleias-jubarte com crias. O programa sugere ajustes de velocidade e rotas alternativas durante a aproximação aos portos.
A iniciativa é apresentada como uma forma de conciliar o transporte marítimo com a conservação da vida marinha, sem interromper a atividade econômica.
Guilherme Maricato é pesquisador de pós-doutorado da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).








