Uma observação de uacaris-de-cabeça-branca selvagens trouxe o primeiro registro de contato facial direto entre animais dessa espécie. O episódio ocorreu durante uma pesquisa na Reserva Biológica do Lago Surara, na região do rio Juruá, no Amazonas, durante a época da cheia.
Em 18 de abril de 2023, às 16h28, um macho adulto se aproximou de uma fêmea que estava em um galho nas partes mais altas da floresta. Os dois ficaram frente a frente, com os focinhos encostados por cerca de 10 segundos. A fêmea permaneceu sentada e em uma postura considerada pelos pesquisadores compatível com receptividade. Não foram identificados sinais de tensão muscular, agressividade ou estresse.
A interação inteira, da aproximação até a saída dos animais para a copa da árvore, durou aproximadamente um minuto. Depois do contato, o macho seguiu para o interior da copa, e a fêmea o acompanhou.
Possíveis funções sociais
O estudo foi publicado no início do mês na revista Biotropica. Os pesquisadores relacionam contatos faciais entre primatas a funções como manutenção de vínculos, resolução de conflitos, avaliação reprodutiva, solicitação sexual e reconhecimento entre indivíduos.
Renann Dias da Silva, pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e primeiro autor da pesquisa, afirmou que só compreendeu melhor o comportamento depois de retornar da expedição e consultar trabalhos sobre o tema. “As bocas de ambos os indivíduos pareciam se tocar, com os focinhos alinhados em uma orientação direta, frente a frente”, registrou o artigo.
Os uacaris-brancos têm faces avermelhadas, supervascularizadas e capazes de emitir odores. Segundo Renann, essas características sinalizam o estado de saúde e podem ajudar as fêmeas a escolher parceiros. A intensidade da coloração facial estaria associada à condição do animal.
Os pesquisadores também observaram um macho adulto se aproximar de um jovem pousado em um galho. O animal inclinou-se em direção à face do indivíduo por cerca de 3 a 4 segundos. Como não houve violência, os autores levantaram a possibilidade de que o contato estivesse relacionado ao reconhecimento.
Renann acompanhou uacaris-de-cabeça-branca selvagens de setembro de 2022 a agosto de 2023. As observações ocorreram na Reserva Biológica do Lago Surara, onde os animais ficam mais concentrados no topo das árvores durante a cheia, quando o solo permanece submerso.
Como foram feitas apenas duas observações, os pesquisadores não afirmam que a sazonalidade tenha causado o comportamento. A proximidade maior entre os animais nesse período, porém, é apresentada como uma possibilidade para explicar os contatos registrados.







