ANTÁRTIDA — O físico belga Francis Halzen recebeu o Nobel de Física de 2026 pela idealização do IceCube, um observatório instalado no gelo antártico para detectar neutrinos. O anúncio foi feito na manhã desta terça-feira (6), em Estocolmo.
Neutrinos são partículas fundamentais, como os elétrons, mas quase não interagem com a matéria. Eles não têm carga elétrica e praticamente não possuem massa. Por atravessarem o universo em linha reta, sem perder muita energia ou alterar significativamente a direção, podem indicar a origem de fenômenos cósmicos distantes.
Cerca de 100 trilhões de neutrinos passam pelo corpo humano a cada segundo. A maioria não é detectada. Em ocasiões raras, porém, um neutrino colide com o núcleo de um átomo presente em uma molécula de água ou no gelo. A interação produz outras partículas e um clarão azulado, chamado radiação Cherenkov. A direção desse sinal permite estimar a trajetória do neutrino e investigar o objeto que o emitiu.
Como funciona o IceCube
Halzen identificou, em 1988, o potencial do gelo transparente e estável do Polo Sul para esse tipo de observação. O detector entrou em operação em 2010, com sensores instalados a cerca de 2,5 km de profundidade. O gelo reduz interferências e permite registrar os sinais produzidos pelas colisões.
A construção envolveu perfuração profunda, sensores de alta sensibilidade e sistemas de computação de alto rendimento. Farinaldo Queiroz, do Instituto Internacional de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, afirmou que os conhecimentos desenvolvidos também podem ser aplicados à pesquisa, ao comércio, à computação e à engenharia.
“Outro exemplo de aplicação é na engenharia de perfuração e logística criogênica”, disse Queiroz. Segundo ele, as técnicas usadas no IceCube também são aproveitadas por glaciologistas, microbiologistas e climatologistas na extração de testemunhos de gelo para estudos sobre mudanças climáticas e vida em ambientes extremos.
Ulisses Barres de Almeida, astrofísico e pesquisador do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, afirmou que o experimento tem impacto principalmente científico, mas seus componentes instrumentais servem de base para outros projetos.
A comissão do Nobel descreveu o trabalho como fundamental para detectar os primeiros neutrinos de alta energia originados em galáxias distantes. Aos 82 anos, Halzen recebeu o prêmio sozinho e destacou a importância das equipes envolvidas no experimento. Para Almeida, a premiação reconhece a expansão da chamada Astrofísica com Multimensageiros, que combina diferentes sinais para observar o universo. A descoberta das ondas gravitacionais havia sido reconhecida com o Nobel de Física de 2017.







