O desconto do bônus de Itaipu fez a energia elétrica residencial cair 7,63% em agosto e foi o principal fator para o IPCA recuar 0,32%, informou o IBGE. O resultado representou a maior deflação mensal em quatro anos, desde agosto de 2022, e ficou abaixo da previsão do mercado, de -0,28%.
O bônus é distribuído aos consumidores quando há saldo positivo na conta de comercialização da usina hidrelétrica controlada por Brasil e Paraguai. O abatimento referente à distribuição de 2025 apareceu nas contas de luz do mês passado. A queda de 7,63% foi a maior para esse item em meses de agosto desde a introdução do real, em julho de 1994.
“Mas tivemos recuos importantes de alguns alimentos, a passagem aérea ficou mais barata, e também os combustíveis, com destaque para a gasolina”, afirmou Fernando Gonçalves, gerente do IPCA no IBGE.
Alimentos e transportes também recuam
O grupo alimentação e bebidas caiu 0,34% e acumulou três meses seguidos de queda. Dentro dele, a alimentação no domicílio recuou 0,61%. As maiores baixas foram registradas pela batata-inglesa (-19,89%), cenoura (-11,22%), cebola (-11,07%), tomate (-10,94%), ovo de galinha (-4,15%) e café moído (-1,86%).
As passagens aéreas ficaram 13,17% mais baratas, enquanto a gasolina caiu 0,59%. Segundo especialistas citados no levantamento, o período entre maio e agosto costuma favorecer a produção de alimentos in natura. A economista Cláudia Moreno, do banco C6, avaliou que o alívio deste ano foi mais acentuado.
Para os próximos meses, porém, chuvas e calor mais intensos podem dificultar a produção. O relatório da consultoria 4intelligence estima que os alimentos deixem a deflação já em setembro, com altas esperadas em categorias como cereais, leguminosas e oleaginosas; farinhas, féculas e massas; tubérculos, raízes e legumes; açúcares e derivados; frutas; carnes; pescados; panificados; óleos e gorduras.
A conta de luz também deve subir com o fim do bônus de Itaipu. O El Niño, fenômeno marcado pelo aquecimento das águas do Pacífico, aparece entre os riscos para os preços no último trimestre e no ano que vem.
Efeito sobre a Selic
A leitura do IPCA reforçou as condições para o Banco Central reduzir a Selic em 0,25 ponto na reunião da semana que vem do Comitê de Política Monetária. A taxa básica está em 14% ao ano.
Economistas, contudo, afirmam que a queda do índice não elimina as pressões sobre a inflação. Matheus Pizzani, economista do PicPay, disse que os dados de agosto não indicam que os juros altos tenham esfriado a inflação de forma suficiente: “Existe uma desaceleração, mas o mercado de trabalho ainda se comporta de maneira restritiva.”
A consultoria 4intelligence identificou alguma desaceleração na inflação de serviços, mas avaliou que ela pode não alterar as perspectivas para os juros. Fábio Romão, economista da empresa, afirmou que o mercado de trabalho está desacelerando, enquanto a renda continua crescendo. Para ele, ainda não há sinal claro de mudança na curva de juros.
Os economistas também acompanham os chamados núcleos da inflação, que retiram do cálculo os preços mais voláteis, e o índice de serviços, mais sensível à demanda e menos afetado por choques de oferta.







