ABROLHOS — A população de baleias-jubarte que frequenta a costa brasileira chegou a quase 35 mil animais, depois de ter sido reduzida a algumas centenas pela caça, proibida mundialmente em 1986. O dado é do último censo do Instituto Baleia Jubarte (IBJ), realizado em 2022.
Durante uma expedição de dois dias ao Parque Nacional Marinho de Abrolhos, no extremo sul da Bahia, pesquisadores registraram 59 baleias próximas ao barco, incluindo dois filhotes. A equipe reúne informações sobre localização, profundidade, comportamento e tamanho dos grupos. Também fotografa as caudas dos animais, que têm padrões individuais usados para identificá-los.
O projeto cadastrou mais de 14,7 mil fotografias na plataforma global Happy Whale. Desse total, 9.254 foram identificadas e correspondem a 8.359 indivíduos. Um dos registros permitiu reconhecer uma baleia que saiu da Bahia e percorreu mais de 14 mil quilômetros até a Austrália.
Dados aplicados à conservação
O acompanhamento de longo prazo embasa normas para o turismo de observação e contribuiu para que a jubarte deixasse, em 2014, a lista de espécies ameaçadas de extinção. As informações também são usadas para reduzir o risco de colisões com navios.
Segundo Milton Marcondes, coordenador de pesquisa do IBJ, orientações já foram adotadas no terminal Almirante Barroso, em São Sebastião (SP), e no porto de Vitória (ES). Os navios são direcionados para áreas com menor concentração de baleias e devem respeitar velocidade máxima de 10 nós.
O instituto também contribuiu para regras sobre pesquisa sísmica, técnica empregada pela indústria de óleo e gás que produz ruído submarino. Bahia, Espírito Santo e Sergipe foram incluídos como áreas de restrição, da linha da costa até a profundidade de 500 metros, entre 1º de julho e 30 de novembro.
“Hoje o desafio é saber como as nossas atividades no mar vão conviver com uma população saudável de 35 mil baleias”, afirma Eduardo Camargo, diretor-presidente do IBJ.
Novas frentes de estudo
A série histórica do projeto permite investigar a ocupação das águas de Abrolhos, a condição corporal das baleias e a influência de fatores ambientais. Pesquisadores também estudam o cortisol, hormônio associado ao estresse, para avaliar os efeitos do barulho e das embarcações.
O IBJ soma 143 artigos publicados e participou da formação de 44 estudantes de mestrado e 19 de doutorado. Amostras de pele e gordura coletadas dos animais serão analisadas em parceria com instituições australianas. A pesquisa vai avaliar a condição ambiental da Antártida e os efeitos da mudança climática a partir da alimentação das baleias.
As jubartes que passam pelo litoral brasileiro migram entre as ilhas Geórgia do Sul e Sandwich, na Antártida, onde se alimentam, e o banco de corais de Abrolhos, área de reprodução e criação de filhotes.
A presença sazonal da espécie na região foi identificada após a criação do parque nacional marinho, em 1983. O Projeto Baleia Jubarte foi fundado por Enrico Marcovaldi e Márcia Engel em 1988. Em 1996, deu origem ao instituto, que desde o início recebe patrocínio da Petrobras.
Em 2025, a Petrobras investiu R$ 70 milhões em projetos socioambientais relacionados ao oceano. O lucro líquido da empresa no mesmo ano foi de R$ 110 bilhões.







